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A NOSSA VIDA, A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE CRISTO
Li há tempos uma crônica em que o autor (José Gil in Revista “Visão”, de 6 de Setembro de 2007) abordava a sua relação com a morte, a propósito do funeral de um amigo. A certa altura, o cronista escrevia “temos, parece-me que reaprender a viver com os mortos. Para melhor lidar com os vivos, para formar uma melhor comunidade humana”. Aludindo ao mal-estar que o silêncio do velório nos impõe que vem “da nossa incapacidade em lidar com esse ‘fato’ excepcional”, o cronista, entre outras conclusões, dizia “não houve rito que me ajudasse”. Era um texto sofrido onde se pressentia um profundo sentimento de tristeza, um desalento imenso pela perda brusca de alguém com quem o autor tinha prazer em conviver. E , para além de tudo, lia-se nas entrelinhas o enorme desconforto que foi para ele, filósofo, ensaísta e professor universitário renomado, lidar com a morte. Pareceu-me ser um bom assunto para nossa reflexão neste tempo de Páscoa.
Ao longo dos muitos funerais a que tenho assistido, habituei-me a ouvir o apelo gasto e circunstancial do pregador “que nos preparemos para a morte”, pois, “todos temos de passar por isto...”. E depois, a pergunta “para quê conflitos, desavenças familiares, invejas, etc., se tudo acaba assim?”. Como m aviso: analisa o teu modo de viver, porque um dia vais morrer! Não me parece que este aviso tenha alguma vez colhido atenção ou benefício, a não ser nas reações de circunstância que se vão ouvindo ao sair da Igreja, “não somos nada, não valemos nada”. Mas, são ouvidos moucos que a recebem.
A morte só nos mostra sua inevitabilidade. Quando muito, pode levar-nos a pensar sobre a fragilidade e a finitude da nossa condição humana. Não ensina nada a ninguém. É velha como o homem e a história é eloqüente nas provas de que aquele não mudou nada ou muito pouco à sua custa. Temendo-a, porque ninguém quer morrer, e, por isso, lhe temos respeito.
Ora, à luz do Evangelho, o centro da existência humana é a vida e não a morte.
A importância da figura de Jesus, para além das suas qualidades e capacidades humanas, está na sua ressurreição, circunstância criadora de vida, exatamente na sua vitória sobre a morte. A fé da Igreja primitiva, assim nos a transmitiu, considerando que só esse evento constitui a razão primeira e fundamental da vivência de uma nova ambiência de esperança “se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é inútil e a vossa fé é inútil também [ICor.15, 14]. O Próprio Jesus, na narrativa da ressurreição de Lázaro, afirma com clareza “Eu sou a ressurreição e a vida.” [S. João11, 25]. Isto é, a fé convida-nos a olhar a nossa existência à luz da vida e não da morte. Na seqüência natural da nossa condição humana, temos de enfrentar a morte, mas com os olhos postos na vida. Só assim podemos lidar convenientemente com os vivos, na alegria, no entusiasmo, no sonho, na dor, no amor, na construção de “uma melhor comunidade humana”, porque acreditamos na Ressurreição de Cristo, ou seja, que a vida se espraia para além da passagem da morte.
Por isso, os ritos só ajudam quem quer ser ajudado. Na realidade, não há rito que nos ajude se na morte vemos somente o fim duma existência. O rito do funeral é um apelo à fé e uma oração de consolo, onde se explicita o abrangente amor de Deus na sua relação de vida com o homem, mesmo com aquele(a) que morreu. A fé na Ressurreição é que nos pode levar a uma nova visão do destino humano, como afirma o teólogo Jürgen Moltmann na sua obra Teologia da Esperança. A certa altura, para melhor esclarecer o seu pensamento, que não é o de uma fé escapista, um sonho, ou mesmo uma “terra de felicidade” lá longe, muito longe..., Moltmann diz “ver na Ressurreição de Cristo, não a eternidade do céu, mas o futuro de uma verdadeira terra no qual a sua cruz permanece”. “Aqueles que esperam em Cristo” -continua- “não podem conviver com a realidade tal como é. A paz com Deus significa conflito com o mundo”.
Numa palavra, somos destinados a “viver”, encarando a cruz da nossa própria vida [aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. -S. Mat. 10, 38], numa permanente relação com o Cristo ressuscitado e em convívio com os outros. A morte não tem aqui lugar, a não ser como contraponto à vida, porque “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” [S. João 10, 10].
Que a Páscoa do Senhor vos acolha na alegria da paz de Jesus ressuscitado.
(Março 2008, O NOVO DESPERTAR , D. Fernando Soares, BISPO ANGLICANO)
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