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+ Dom Glauco Soares de Lima

A UNIDADE EM PERIGO


       O Vaticano desfechou um grande golpe nas relações ecumênicas ao reafirmar suas dúvidas sobre a validade das igrejas protestantes (e nelas eles nos incluem), e ao oficialmente ordenar aos bispos católico-romanos não usarem o termo "igrejas-irmãs" em referência a elas. Uma nota oficial do Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, adverte que descrever igrejas protestantes (nós nelas incluídos) como "igrejas-irmãs" pode causar "ambigüidade". Um outro documento, Dominus Jesus, sobre a Universalidade Salvífica de Jesus Cristo e a Igreja, também publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé declara que as igrejas (no entender deles) não possuem um episcopado válido e a substância genuína e integral do mistério eucarístico, portanto, não são igrejas no sentido próprio do termo. Os dois documentos sugerem uma distinção entre, de uma lado, as igrejas Romana e Ortodoxa que, de acordo com Roma, são relacionadas, e, por outro lado, as comunidades protestantes (nós incluídos). Ambos os documentos marcadamente evitam usar a palavra "igreja" quando se referem aos protestantes, adotando no lugar da mesma o termo, que não envolve compromisso, de "comunidades eclesiais". A primeira reação que eu tive foi de perplexidade e desânimo na nossa luta pelo ecumenismo. Estava eu ainda embalado pelos avanços da Reunião de Toronto, no Canadá, quando recebo esta "ducha fria". Entretanto, à medida que comecei a refletir melhor, conclui que, lamentavelmente, os males do institucionalismo retrógado, que ataca qualquer igreja (a nossa não está isenta disso), leva o lado católico do Cristianismo a cair no fundamentalismo estrutural, ou seja, manutenção do "complexo de Cristandade". O lado protestante cai no fundamentalismo bíblico e moralista. E as nossas igrejas, com isso, acabam como "ghettos" divorciados da realidade e alimentam o caráter doentio que assalta muitas pessoas na humanidade hoje. William James, famoso filósofo norte-americano do início do século, dizia, em seu livro "As Variedades da Experiência Religiosa", que há dois tipos de religião: a de "mente sadia" e a da "alma doente". Esta última, é que cresce com bastante facilidade. A humanidade, infelizmente, é uma humanidade, em sua maioria, doente e o que apela são aquelas religiões que estimulam o nosso lado mórbido ou doentio. Os sociólogos dizem que uma das razões disso é que a humanidade está passando do estágio industrial para o de uma sociedade pós-industrial. Alvin Toffler fala da famosa 3ª Onda. Há gente que ainda vive nos parâmetros da 1ª Onda (a sociedade agrícola); outros ainda estão muito enraizados na 2ª Onda (a sociedade industrial). Como existe ainda um processo de adaptação à 3ª Onda (a sociedade pós-industrial ou cibernética), a maioria das pessoas, para vencerem a sua insegurança, se refugiam em receituários religiosos ditados ou por um fundamentalismo bíblico (a Bíblia passa a ser um ditado de Deus e é, portanto, não sujeita a erro), ou estrutural (só uma Igreja ou organização religiosa é que tem a verdade), ou moralista (código de moral que lhe diz acriticamente isto é certo, isto é errado). O novo mundo no qual estamos entrando é um mundo que vai exigir ao ser humano muita criatividade. O ser humano vai ser mais autônomo não só para o seu trabalho, como para o seu lazer, como para orientar a sua vida. Aí vamos ter que reconhecer que Deus não é um Pai autoritário, ou dogmático,mas um Pai companheiro, que se manifesta através de seus filhos, que são co-partícipes com Ele na obra da Criação. De fato, estou convencido que a Unidade dos cristãos, a Unidade da humanidade, é uma construção que está sendo feita nas bases das igrejas e não nas suas cúpulas, por melhor que elas sejam. Assim, independente das notas e decretos, encíclicas, etc, vamos continuara nossa construção, que é um processo de amor orientado pelo Espírito Santo que se manifesta em nós.

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