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Coco, o Caju e o Sagu do Canttone"Da manga rosa quero o gosto e o sumo, melão maduro sapotí juá, jabuticaba teu olhar noturno, beijo travoso de umbu-cajá. Pela macia ai carne de caju, saliva doce, doce mel, mel de urucu. Linda morena fruta de vez temporana, caldo de cana-caiana, vem me desfrutar. Morena tropicana eu quero teu sabor...". Com essas palavras Alceu Valença desafiou o Brasil a descobrir o sabor das pessoas. Ele com tropicalidade e muita propriedade poética desvenda a doçura do sapoti, o doce travoso do umbu-cajá, a maciez da carne do caju e a negritude da jabuticaba na morenisse pernambucana amada. Tanto as frutas como as relações precisam ser colhidas. Ambas têm suas estações apropriadas e caminhos próprios para alcançar o fruto nas fruteiras. Umas alcançadas e saboreadas rapidamente, outras bem "devagarinho" com quem aprecia um bom chimarrão, pois existem frutas e frutas; pessoas e pessoas. A grande verdade desta espiritualidade é que alcançamos e somos alcançados pelas pessoas, dependendo qual fruta nós somos. Lembro-me de duas frutas que estão presentes na minha vida e em meus sabores, são elas: o Coco e o Caju. São frutas maravilhosas e com suas peculiaridades, porém para quem conhece um coqueiro e um cajueiro percebe que nessas fruteiras somos desafiados também a olharmos para os caminhos que fazemos até seus frutos. Qual o caminho até o coco? Bem, o coqueiro é uma fruteira que chega a trinta metros de altura, com seu tronco cilíndrico, nervoroso e áspero, ao qual se encerra em folhas pinadas. É uma verdadeira arte chegar até a fruta, tornando artístico o ofício de um "tirador de coco". Esses catadores colhem as frutas munidos de cordas que enlaçam em seus pés e ao troco da árvore, fazendo um frenético e atlético jogo de pernas e braços até alcançar os cachos da fruteira com seu facão. Para complicar, na origem do termo "coco" temos a declaração de medo à fruta, pois foi nominada pelos portugueses numa viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1498), a partir da associação da aparência do fruto, visto da extremidade, em que o endocarpo e os poros de germinação assemelham-se à face de um "coco" - monstro do imaginário ibérico com que se assusta as crianças; papão; ogro. Como é difícil e árduo chegar até o coco... Mas, quando conseguimos tudo muda... O coco é uma das frutas mais ricas e nutritivas que conhecemos. Lembro-me do doce "baba-de-moça", um delicioso quitute feito por minha mãe com a carne do coco verde... indescritível! Lembro-me de apreciar uma água-de-coco bem gelada no calor da beira-mar na praia de Boa Viagem, de saborear um bom Sirigado frito ao molho de coco, de me lambuzar num doce de coco com raspa de mamão verde, e de degustar uma tapioca de coco apreciando a vista do alto da Sé em Olinda... Existem pessoas que, semelhantes ao caminho do coco, num primeiro momento são ásperas, rudes, duras, difíceis de alcançar. Entretanto, quando nos esforçamos e chegamos até seus frutos conseguimos colher e conhecer a doçura, a beleza, e a riqueza de suas almas. E o caminho do caju? O cajueiro é uma fruteira exótica e belíssima, pois em seus frutos, geralmente carnosos, são encontrados vários e sedutores tons vermelho-amarelados, amarelos e rosados. Não existe muita dificuldade para chegar até o caju. O tronco do cajueiro é tortuoso e relativamente baixo, fazendo com que até uma criança estendendo o seu braço em direção aos galhos colha facilmente um caju. Porém o caju nos "engana"... O caju trata-se de um pseudofruto, pois o que entendemos popularmente como "caju" se constitui de duas partes: a fruta propriamente dita, que é a castanha; e seu pedúnculo floral, pseudofruto geralmente confundido com o fruto. Suas folhas têm uma resina tóxica à qual só os macacos são imunes. Seu sabor apesar de doce é travoso, e a mordida generosa na carne da fruta enoda rapidamente os dentes de seu degustador. Ou seja, aquilo que vemos é o "pseudo"... Existem pessoas que nos confundem como o caju. São de fácil acesso, de bela aparência, sedutoras, e num primeiro momento conquistam a simpatia de todos. No entanto, quando conhecemos seus frutos, descobrimos a amargura, o jeito travoso, as nodas que mancham, e as toxinas que emitem... São pessoas que não conhecem a doçura e o sabor da cajuada, pois ainda não passaram seu caju pelo fogo do cozimento. Correm um sério risco de se tornarem "passa" com o tempo. A vida nos convida a aprender a saborear o doce e o amargo a partir de nós mesmos. De descobrir o caminho das frutas alheias e da nossa capacidade de sermos degustados pelos nossos semelhantes. Certamente Jesus sabia disso quando nos diz que devemos amar – saborear – o próximo como amamos - saboreamos a nós mesmos... Como começar então? Descobrindo o quanto podemos ser mais doces na vida! O mais doce e saboroso que pudermos ser, como um sagu. Pois o sagu se saboreia longe dos amargos... Quando conheci o sabor doce e singular do sagu gaúcho em Santa Maria, especialmente o do restaurante Canttone de meus amigos Iara e Luiz Druzian, vi o quanto poderíamos ser mais doces nesta vida. Tenhamos uma boa degustação! Deão
da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja
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A medida do Pentecostal e o Pentecostal na medida... O calor do Espírito Santo agora vem sendo mensurado por pesquisas. Isso é no mínimo curioso... O mais interessante é que temos pesquisas mais vinculadas as eclesiologias denominacionais que a uma teologia cristã. Recentemente foi divulgado que o Brasil é hoje o maior país Pentecostal do mundo. A pesquisa doWorld Christian Database indica que o Brasil tem 24 milhões de seguidores de igrejas pentecostais, superando os EUA, com 5,8 milhões de pentecostais. O levantamento do instituto americano indica que o país reúne milhões de seguidores pentecostais de igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Assembléia de Deus e a Renascer em Cristo. Podemos também considerar que o Brasil não protestante também está mais pentecostal. Apontado como o maior país católico romano do mundo, o Brasil testemunhou no final dos anos 90, a Renovação Carismática Católica, que tem como maior expoente o padre-cantor Marcelo Rossi e atualmente acompanha a força renovadora do movimento carismático da “Canção Nova” liderado pelo padre Jonas Abib. A renovação carismática é dito como o lado católico do pentecostalismo e, tal como os protestantes, também valoriza os dons concedidospelo Espírito Santo, a oração intensa e a relação íntima com o “Consolador”. Então podemos afirmar que “católico carismático”, “pentecostal”, “neo” ou “pós – pentecostal” é tudo igual? A resposta é não e sim. De fato é um equívoco afirmar – como afirma a pesquisa - que um pentecostal histórico da Assembléia de Deus expressa na sua espiritualidade o mesmo ethos que um neo-pentecostal da Igreja Renascer ou da Igreja Universal do Reino de Deus. Percebe-se que a falta de um aprofundamento científico histórico- teológico terminou por desenvolver um “rosto do protestantismo brasileiro” na percepção dos não-protestantes, bem como dos próprios protestantes. Há uma verdadeira confusão entre o que se chama de expressões de fenômenos históricos e tipologia religiosa, de maneira a se desconhecer, por exemplo, a clara diferença entre os ditos pentecostais históricos e os neo-pentecostais ou pós-pentecostais, bem com os carismáticos católicos. A ciência política afirma que, o que convencionamos hoje, em uma tipologia de Protestantismo é, na realidade, um conglomerado de seis expressões, de seis fenômenos históricos da igreja: A Primeira Reforma - onde se inclui o Luteranismo e o Anglicanismo; A Segunda Reforma: de cunho zwinglinianocalvinista, como as igrejas reformadas e presbiterianas, com a rejeição do episcopado histórico, da liturgia e das artes sacras históricas, e confessionalista; A Terceira Reforma: também chamada de “reforma radical”, fruto do anabatismo e do não-conformismo independente, com ênfase no batismo de adultos, na autonomia das comunidades locais. Aqui estariam os congregacionais, os batistas, os menonitas, dentre outros; A Quarta Reforma: do início do século XX, com o pentecostalismo histórico, com uma ênfase pneumatológica na contemporaneidade dos dons espirituais, especialmente a glossolalia, onde se originam as Assembléias de Deus; A Quinta Reforma: do final do século XX, também chamada de neo-pentecostalismo (ou pós-pentecostalismo), com vertentes populares e elitistas, com ênfase na “batalha espiritual” e na “Teologia da Prosperidade”: Universal do Reino de Deus, Renascer e outras. Para tanto, jamais poderemos afirmar que o Pentecostalismo brasileiro, protestante ou não, tem a mesma cor diante das diferenças históricas e eclesiológicas. E muito menos medir tipologicamente o que imaginamos ser “pentecostal”, sem o devido respeito histórico e teológico. No entanto, podemos afirmar aquilo que muitas vezes não parece obvio, mas é: Teologicamente toda Igreja é Carismática ou Pentecostal, como queira, pois jamais existirá a Igreja sem a presença do Espírito Santo, sem o Káris de Deus. Afinal, é o Espírito Santo que sopra nas velas da Náu-Igreja, desde que soprou impetuosamente sobre os discípulos numa casa em Jerusalém, durante a festa de pentecostes, há 2 milênios atrás. (Atos 2:1-13). Nossa preocupação como cristãos não deve descansar em medidas sobre o quanto somos mundialmente mais Católicos ou mais Pentecostais, e sim, em que medida a terceira pessoa da Santíssima Trindade está em nós, na Igreja e para mundo. Ainda existem muitas pessoas e muitos cristãos que só ouvem falar de Deus e de Jesus, mas não conhecem absolutamente nada sobre o “Consolador” e seu calor transformador... Na medida certa! Você conhece? Você já mediu isso? Se não conhece, não sabe o que está perdendo... Ele está soprando, ajustemos as velas! Deão
da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja
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As fachadas de vidro e os óculos de sol espelhados Quando nos propomos a tomar como objeto de análise um edifício pós-moderno e suas características quanto à originalidade do espaço arquitetônico, esse parece traduzir uma desconformidade na maneira com que o ser humano ocupa seu espaço. Percebe-se que nestes chamados “hiperespaços” o indivíduo não acompanha a equivalente mutação espacial. É como se mudasse algo no objeto que ainda não foi seguido de uma mutação do sujeito. O fato é que nossos hábitos foram formados em espaço menos recentes, e isso faz da arquitetura contemporânea quase um imperativo para o desenvolvimento de nossos relacionamentos, para a expansão de nosso equipamento sensorial e novas dimensões de nossos corpos. Mesmo assim, diferentemente do utópico “alto modernismo”, a arquitetura pós-modernista não tenta inserir-se abruptamente no meio do antigo, nem tem no “pilotis” de Le Corbusier, um signo de quem se põe acima do que é o “feio” e “antigo” da cidade... O que vemos, na maioria das propostas recentes, é uma tentativa, nem sempre feliz, de procurar respeitar e dialogar com a linguagem vernácula do tecido urbano. Mas mesmo quando se projeta para o futuro, traduz-se ainda aquilo que se é... Explico. Podemos observar os extensos panos de vidro das fachadas “pós” e perceber que elas transmitem uma sensação, em geral, de desenvolvimento tecnológico, de “futuro”, porém acabam por ressaltar o modo pelo qual o revestimento de vidro repele a “feiúra” da cidade, por vezes violenta e estressante que está “lá fora”. Uma repulsa cuja analogia, como diria o crítico Fredric Jameson, que encontramos naqueles óculos de sol espelhados, que impedem um interlocutor de ver nossos olhos, dotando-nos assim de certa agressividade e certo poder sobre o outro... Por vezes não se expressa a plástica externa da obra arquitetônica, mas imagens distorcidas de tudo que está a sua volta. Assim, também nós, estamos muitas vezes espelhando e distorcendo o outro através de nós mesmos. Promovemos uma estética que nos separa daquilo que mais precisamos: nosso semelhante. Não só na arquitetura podemos perceber o resultado deste ethos, contudo, importa que reconheçamos a nossa capacidade de através de uns simples óculos espelhados gerarmos “poder” sobre o outro. E pior, de não temos muitas vezes a coragem de, em meio a um diálogo, sermos aqueles que falam olho no olho. Como em “hiperespaços” arquitetônicos pós-modernos, que mesmo com uma ocupação constante de pessoas nos causam a impressão de que nunca lotarão seus vazios internos, também muitas pessoas vivem com a sensação de vazio interior ainda residente, e teimam em se esconder atrás de “óculos espelhados”... O mais impressionante disso é que a “crise da modernidade” faz deste usuário de óculos alguém que busca desesperadamente por Significância, por Transcendência e por Comunhão. Porém, é na busca por Comunhão que surgem as “fachadas” e seus extensos “panos de vidro espelhados”. Comunhão é algo que só se constrói com relacionamento, com amor palpável e saúde. Ela não acontece em relacionamentos de “nickname”, “login”, “orkut”, “MSN”... Só nas construções “vernaculares”, “olho no olho”, e que resultem em abraços, perfumes, olhares, gostos, calor e canção... Para termos Comunhão num mundo que nos separa, nos divide, nos deixa doentes, vazios, e supostamente “poderosos”, é cada vez mais mister sermos Arquitetos do Amor! Quando entendermos o que é, verdadeiramente, “amar ao próximo como amamos a nós mesmos”, deixaremos os nossos “óculos de sol espelhados” em casa... Fábio
Vasconcelos Deão
da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja
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Se Marinetti acertou, andemos a pé como Gonzaga... A cada final de ano renovamos nossas forças, na esperança de que no próximo ano tudo será melhor e diferente. Contudo, todos somos vítimas da maneira como o ocidental encontrou para fatiar o tempo, colhendo-o em dias, meses, e anos. Essa ação nos torna caçadores ferozes do tempo, que não nos dá tempo... Perseguidores implacáveis de um dia que não tem 25, 26, 27 ou até 30 horas para fazermos tudo aquilo que planejamos para suas 24 horas. Infelizmente, a “velocidade” tem cada dia mais nos tirado o tempo que nos resta para experimentarmos os cheiros, as formas e os sabores das coisas que lutamos tanto para conquistar rapidamente. Com a chegada do “moderno”, a velocidade se tornou o protagonista da vida e do futuro de todo ser humano. O belo e o adequado teriam que ser vividos e absorvidos com eficiência e rapidez. Foi em 1909 com a publicação do “Manifesto Futurista”, do poeta italiano Filippo Marinetti, que o ser humano foi convidado a rejeitar o moralismo e o passado, exaltar a violência, e propor um novo tipo de beleza, baseada na velocidade. Dizia Marinetti: “Declaramos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida com a carroçaria enfeitada por grandes tubos de escape como serpentes de respiração explosiva…um carro tonitruante que parece correr entre a metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia”. O Futurismo se traduziu como uma influência contundente na mentalidade “moderna” para o século XX, que produziu uma estética do consumo nas artes e na comunicação moderna. O arquiteto Antonio Sant’Elia, ligado ao movimento futurista, parecia prever em seus desenhos o ritmo frio e árido das relações humanas nas grandes cidades e a desumanização dos mega centros. Hoje, se nosso computador não for “veloz”, nos estressamos. Se nosso carro não for rápido, nos aborrecemos. Se nossa conversa não for breve, nos chateamos. Se nossa resposta não for instantânea, estressamos, aborrecemos e chateamos os outros... Até, se nosso prazer não for rápido, ficamos nervosos. O mais irônico é que, com toda essa rapidez, com tempo que ganhamos, que deveria nos sobrar, ainda ficamos com a sensação de que nos falta tempo... Queremos e “devemos” ser rápidos em tudo, mesmo assim não estamos satisfeitos com o que nos resta... Que beleza estranha apresentou Marinete e Sant’Elia... A verdade é que temos uma sensação que a vida esta passando, e que não estamos tendo tempo para viver. Os filhos crescem e não vemos, os pais envelhecem e não honramos, as amizades vão e não nos despedimos, a vida passa e não vivemos... Podemos nos perguntar então: A quem abraçamos este ano? Quantas amizades fizemos? Quantos sorrisos ofertamos? Quanto tempo ganhamos para dar? Se você correu muito neste último ano é possível que não tenha feito nada disso... Quem corre não vê muita coisa. Não saboreia, não cheira, não toca... Não ora. Pense bem, você já viu o orvalho beijando a flor? Já ouviu o canto do “galo de campina”? Já molhou os pés no riacho durante uma caminhada? Se você correu muito neste último ano é possível que não tenha feito nada disso... Disse em simples sabedoria popular, diferentemente de Marinetti, o saudoso Luiz Gonzaga - o rei do baião, que para encontramos a beleza da vida devemos aprender a “andar”... Quando conhecemos o valor de “saber andar a pé” é que entendemos a vida e tudo que passamos nela. Ele nos convida a “desacelerar” na sua poesia intitulada “Estrada de Canindé”: “Ai, ai, que bom. Que bom, que bom que é / Uma estrada e uma cabocla / Cum a gente andando a pé. Ai, ai, que bom / Que bom, que bom que é / Uma estrada e a lua branca / No sertão de Canindé. Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié / Quem é rico anda em burrico / Quem é pobre anda a pé. Mas o pobre vê na estrada / O orvaio beijando as flô / Vê de perto o galo campina / Que quando canta muda de cor. Vai moiando os pés no riacho / Que água fresca, nosso Senhor. Vai oiando coisa a grané / Coisas qui, pra mode vê / O cristão tem que andar a pé...”. Desacelere!!! Saboreie, cheire, respire, sorria, abrace, beije, ame, veja, ore... Que Deus abençoe seus passos neste Novo Ano, pois tem coisas na vida que para se ver, você tem que “saber andar a pé”... Fábio
Vasconcelos Deão
da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja
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“Nós
somos Madeira-de-lei que cupim não rói...” Foi
o Iluminismo do século XVIII na Europa que depreciou aquilo que
entendemos por Tradição. A tradição e costume sempre foram a “essência”
da vida das pessoas durante a maior parte da história humana. Há
infindáveis discussões sobre modernidade e pós-modernidade, mas
poucos refletem sobre a tradição. As raízes lingüísticas da palavra
tradição são antigas e têm origem no latim tradere, que
significa transmitir, ou confiar algo aos cuidados de alguém. A Tradere
surge originalmente no contexto do direito romano, em que se referia as
relações de herança. Uma propriedade poderia passar de uma geração
para outra, dada em confiança, para protegê-la e provê-la. Hoje,
o conceito de tradição se rendeu a modernidade como algo arcaico e
sombrio, e que impede a manifestação do “novo”. Engano. A grande
verdade é que as tradições são inventadas e reinventadas. Tradições
devem nos levar a muitos lugares, não podendo ser vista por nós como
uma tolice. Tradições
e costumes sempre foram inventados por um conjunto diverso de raízes.
De fato, as tradições mudam. A idéia de que a tradição é impermeável,
é mítica. Tradições evoluem ou não ao longo do tempo, e podem ser
alteradas ou transformadas de forma sumária também. Uma
tradição completamente pura é algo que jamais vai existir. A
persistência ao longo do tempo, não é a “pedra de toque” que
define a tradição. Tudo depende simplesmente daquilo que torna a tradição
um patrimônio, aquilo podemos chamar de Povo, Pessoas, grupos, o
Coletivo... Isso
nos remete a celebração dos 106 anos da presença Anglicana em Santa
Maria. História que se funde com a própria história de uma cidade com
148 anos. Celebramos uma caminhada, uma tradição, uma comunidade. Aliás,
os anglicanos são vistos como guardiões de uma igreja
“tradicional” ao moldes do olhar moderno, entretanto, sempre nos
cabe a responsabilidade de sermos “tradere” na raiz da palavra, e
nos preocuparmos com a “transmissão” do Evangelho de Cristo, com
aquilo que confiamos às próximas gerações, e com a consciência de
proteger e promover o que nos é dado. Isso vale para toda família de fé.
Inclusive a sua, você que lê este artigo. No
entanto, defender a tradição significa muito mais que ser
“envernizado”. Defender uma tradição é muito mais que ser guardião
da “rigidez”. Defender a tradição é lutar contra o esvaziamento
do que é essencial, para que não nos tornemos comercializáveis.
Defender a tradição é aceitar o diferente, o novo, sem perder
identidade. Queremos
alertar que o declínio da tradição nos leva ao individualismo, a
solidão e a dependência dos vícios. De fato, sentimentos que não são
partilhados levam o ser humano a uma autonomia engessada e solitária,
que é o carro chefe do modelo de sociedade que temos. Nas
comunidades de fé também não é diferente, o Deus que é “Pai
Nosso”, passa a ser um Deus pessoal e privado. Como muitos dizem: “o
meu Deus”...ou “Pai meu”. Depois
de 106 anos de tradição, devemos e queremos ser tradere.
Defender a tradição de maneira não sitiada. Tradição defendida de
maneira sitiada é fundamentalismo. Hoje,
numa sociedade de crendices religiosas, messianismos, proselitismos
imperantes, mercadologia da fé, deuses pessoais, torna-se um desafio a
todas as Igrejas defender a tradere cristã com a criatividade,
com a poesia, com a arte, com a música, com a paixão, com a comunhão,
com a esperança...! Com unção! Identidade
só se baliza e se fortalece com tradição! Parabéns
a todos que são cristãos por conversão, reformados por opção, e
anglicanos por tradição nesta cidade. Parabéns
Catedral Anglicana do Mediador! Deixo-vos
as marcantes palavras de um poeta e compositor pernambucano, o saudoso
“Capiba”: “E se aqui estamos cantando esta canção / Viemos defender a nossa tradição / E dizer bem alto que a injustiça dói / Nós somos Madeira-de-lei que cupim não rói...”. Fábio
Vasconcelos Deão
da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja
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Nem Cabral descobriu, nem Henrique fundou... Com a chegada do calor santamariense não pude me furtar de minhas lembranças praieiras... Um bom camarão e uma geladíssima água–de–coco à beira-mar do belíssimo litoral sul do "Leão do Norte". Areias quentes que um dia presenciaram a chegada de navegadores europeus no final do século XV. Então me veio à mente figuras históricas, fatos reais e fatos oficiais. Rapidamente pensei em Vicente Yañez Pinzón, um desconhecido em nosso país. O navegador espanhol, filho de próspero comerciante e irmão de dois valorosos navegantes, que, segundo dados históricos, até salvou a vida de Cristóvão Colombo em sua famosa viagem de 1492, conforme relatado no livro "Vicente Pinzón e a Descoberta do Brasil", do jornalista Rodolfo Espínola, fonte rica em informações e pesquisa. Vicente esteve em praias brasileiras em janeiro de 1500, onde segundo alguns, desembarcou no "Cabo de Santo Agostinho" - águas quentes do litoral sul pernambucano. Êpa! Mas como? Não foi Pedro Álvares Cabral que descobriu o Brasil? ...Parece que os fatos oficiais nunca se abraçam com os fatos reais. Em termos relativos, isso depende tão somente do nível de seriedade que dermos à educação e à pesquisa em todos os campos do conhecimento. Acho que quanto mais crescer a conscientização social, política e jurídica de nosso povo, mais exigentes seremos em valorizar a pesquisa isenta, real. O mestre Ariano Suassuna nos alerta que temos dois países: O "Brasil oficial" e o "Brasil real". Em qual situação nos sentimos melhor? O quanto de nós é oficial ou o quanto de nós é real? Lembrei também de uma freqüente afirmação histórico-oficial que minha professora de história fazia nos meus tempos de banca escolar. A afirmação de que a Igreja Anglicana fora fundada pelo rei Henrique VIII da Inglaterra, pois queria separar-se de Catarina de Aragão e casar com Ana Bolena em busca de um herdeiro varão para a casa dos Tudor. De fato uma das perguntas que sempre se faz a um anglicano é: "Qual a origem da igreja anglicana?". A resposta encontrada nos livros didáticos de história é oficial e não real. Henrique não poderia fundar algo que já existia, assim como Cabral não poderia descobrir algo que já fora antes descoberto. As igrejas históricas conservam suas origens na expansão do cristianismo primitivo e na tradição apostólica. Acredita-se que o cristianismo chegou à Inglaterra no século III com os legionários, mercadores, soldados e administradores do império romano. Sabe-se que já no Concílio de Arles, ao sul da França, três bispos britânicos participaram representando aquela região. Contudo, depois da destruidora invasão dos Anglo-saxãos na Grã-bretanha surge um cristianismo monástico, que se funde com as tradições Célticas locais, dando origem a então chamada "Igreja Celta", tendo Patrick e Columba como líderes de expressão na igreja, e a abadia da Ilha de Iona como grande centro de produção intelectual e religiosa. Já nesta época eles tinham o calendário litúrgico diferente da igreja do continente, e até comemoravam a páscoa em outra data. Só em 597, o papa Gregório Magno envia uma comitiva de 40 monges chefiada por Agustinho (não confundir com o de Hipona) para "romanizar" a igreja que lá já expressava a fé cristã com suas particularidades. Essa tentativa não foi bem aceita e sempre causou problemas. Durante séculos a parte inglesa da igreja julgava necessário resistir à antiga intromissão papal. O fato real é que o controverso Henrique VIII não fundou uma nova igreja, mas simplesmente separou a Igreja que já existia na Inglaterra da tutela e controle dos romanos por razões políticas, econômicas, religiosas e pessoais. Separada e independente a Igreja da Inglaterra abraçou a Reforma Protestante, adotando e elaborando um caráter de via média entre a tradição dos pais da igreja (patrística e escolástica) e a tradição protestante. Hoje, há um conjunto de províncias - igrejas nacionais ou regionais - que formam a grande família da Comunhão Anglicana (não confundir com Igreja da Inglaterra – que é apenas mais uma província da Comunhão). Estas Províncias estão em comunhão com a Sé de Cantuária na Inglaterra e possuem em comum uma história, uma espiritualidade, uma liturgia, um ethos. Cada Província é autocéfala – mas trazem consigo um enorme poder espiritual e representativo dentre os 95 milhões de fiéis. Assim, uma das marcas da Comunhão Anglicana é o seu ethos inclusivo, compreensivo e diverso. Isto significa que os anglicanos optam por manter uma espécie de "caminho do meio" entre Roma e Genebra. Dentro do anglicanismo existe a explícita e consciente tomada de posição por se manter a Tradição Católica (universalidade) da Igreja, ao lado da Tradição Protestante. O anglicanismo não nega os séculos de tradição que recebeu da patrística e da escolástica, mas também não rejeita o sopro renovador trazido pela Reforma Protestante do século XVI. Diante deste calor de primavera, tenho a certeza de que esse histórico é de fato real. Entretanto, ainda continuamos festejando Cabral e seu "descobrimento", "desconhecendo" a Igreja de Henrique, e "difundindo" tantos outros fatos oficiais em detrimento aos reais... Em qual situação nos sentimos? O quanto de nós é oficial ou o quando de nós é real? Enquanto isso, vou sonhando com minha água-de-coco e meu camarãozinho neste "real" calor... Fábio Vasconcelos Deão da Catedral Anglicana do Mediador e Arquiteto Igreja Episcopal Anglicana do Brasil Artigo de 13-10-06, publicado na coluna semanal do autor no Jornal santamariense A Razão.
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Francisco de Assis e o Rabo-de-Arraia No dia 04 de outubro o mundo celebrou o Dia Internacional dos Animais, como também lembrou-se a memória de Francisco de Assis – dia de sua morte – como uma das maiores expressões de vida contundente da práxis cristã, no que se refere à responsabilidade e zelo de nossos relacionamentos. A imagem de Francisco está modelada na figura do frade que alimentava e conversava com as aves, amava e protegia os animais, baseando sua vida no amor por todas as criaturas de Deus. Os animais, segundo os paleontólogos, surgiram no período Cambriano – cerca de 500 milhões de anos atrás. Mas hoje claramente são sinônimos de "estimação" e "mundo selvagem", de extinção e preservação, de "Pet Shop´s" e exploração animal. Uma série de contrastes que servem de exemplo de como o homem se relaciona com os animais, com os outros e consigo mesmo. Como não lembrar da quase extinto urso panda asiático, que ainda resiste em um número de mil em todo o mundo, caçados por sua carne e pele? Como não lembrar dos raríssimos, e ainda caçados, mico-leão dourado e ararinha azul? E das 208 espécies que o Brasil tem a caminho do desaparecimento da face da terra? Entretanto, no caminho inverso disso, existem animais que são tratados como reis e rainhas. Com direito a comida especializada, psicólogos, banhos de "ofurô" e muito mais... Há quem diga que isso é fruto da superficialidade das nossas relações afetivas humanas; e sobra para tudo para os animais... O que Francisco diria disso tudo? Dias atrás lembrei de um fato trágico-histórico testemunhado na grande Recife no ano de 2000. Um menino fora devorado num circo por dois leões na frente de dois mil espectadores, que viram atônitos os animais estraçalharem a criança por minutos, até a morte. Foi um horror... Depois fiquei sabendo por minha esposa, que é veterinária, que na necropsia do HV encontraram indícios de que os animais estavam mal alimentados e famintos. O que é que aqueles leões estavam fazendo ali? Por que eles não estavam no seu habitat natural? Às vezes precisamos enjaular para nos satisfazer com o outro... Jaulas são coisas inventados por humanos... Hoje o circo está de formato novo; ele é televisivo. O domador de animais agora é um "showman", ele é que vai até o "mundo selvagem". Lá eles "domam" de frente para as câmeras para milhares de telespectadores. Eles são "bonzinhos" agora. Manipulam, estressam os animais, os sacodem, os balançam, os colocam no pescoço, e enfiam a cabeça na boca dos mais venenosos e perigosos, mas não enjaulam nenhum. Fazendo-nos quase acreditar que animais selvagens aceitam naturalmente as manipulações em seu habitat ante as jaulas do passado. Até o dia em que encontram no caminho os rabos-de-arraia... No mês passado um destes domadores, o "caçador de crocodilos", Steve Irwin – famoso por expor seu filho de poucos meses de idade a um crocodilo feroz - morreu numa das suas aventuras tele-circenses. Enquanto perseguia uma arraia touro numa grande barreira de corais australiana foi alvejado no coração pelo aguilhão do rabo do animal. O que é que aquele homem estava fazendo ali? Por que ele não estava no seu habitat? Sua vida terminou sumariamente num rabo-de-arraia... Nossos relacionamentos com os animais por vezes refletem a nossa incapacidade de nos relacionarmos pacificamente entre nós mesmos. Enjaulamos, escravizamos, manipulamos, domamos, "petficamos" pessoas, estressamos, desrespeitamos espaços alheios e invadimos sem pedir licença. É certo que neste mundo da "pós-modernidade" estamos carentes de nosso semelhante, mas ao mesmo tempo o alvejamos, e somos ferroados, por rabos-de-arraia. Uma Crise braba...! O que Francisco diria disso tudo? Ele certamente diria: "Ó Mestre, fazei com que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado; pois é dando que se recebe; é perdoando, que se é perdoado; e é morrendo que se vive para a vida eterna". Artigo publicado dia 06-10-06 na coluna semanal do Jornal A Razão. Rev. Fábio Vasconcelos Deão da Catedral Anglicana do Mediador
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Rev. Fábio Vasconcelos |
Transfigurar é ofuscar com o Amor Ref.: Ex 34:29 - 35; Salmo 99; II Pe 1: 13-21; Lc 9:28 - 36 Como podemos olhar para a marca da Transfiguração de nosso Senhor Jesus Cristo? Passados seis meses de trabalho, agora nós ouviremos a mesma lição presente no último domingo da Epifania, porque de há seis meses nós ouvimos este texto, como uma mensagem da manifestação divina entre os povos. Agora, o evento da transfiguração é recortado, recordado e selado no domingo reservado em nosso calendário litúrgico para a "Transfiguração do Senhor". Nós celebramos esta festa no dia 6 de agosto, data essa reservada para a reflexão e memória deste evento. Entretanto, o dia 6 de agosto também lembra à humanidade que aproximadamente há sessenta anos atrás a força aérea americana lançou uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, Japão - um evento profundamente dramático que mudou para sempre o mundo. Este cataclisma liberou tanta energia que o céu azul daquela cidade foi transfigurado em uma luz branca resplandecente e ofuscante de uma intensidade nunca antes testemunhada. Para alguns japoneses que testemunharam esse fato na época, relembram dele como se o próprio inferno tivesse cruzado com a terra naquele dia. Cerca de setenta mil pessoas foram aniquiladas imediatamente e outras incontáveis foram feridas fatalmente. Por mais de seis décadas nós convivemos com a realidade de que os seres humanos têm a capacidade destruir a si mesmo, seu semelhante e a toda criação de Deus. Este é um exemplo extremo, dramático de como nós na terra podemos tratar o nosso semelhante, como terrivelmente podemos nos transformar em destruidores quando somos ameaçados. Facilmente nós podemos esquecer do propósito para o qual nós fomos criados, apesar do Senhor de nossas vidas desejar a nossa reconciliação para com nossas relações quebradas. Esse fato histórico ilustra como é fácil para nós pervertermos as energias que o Deus criou. Somos realmente bons nisso... Embora o bombardeio de Hiroshima tenha acontecido somente uma vez, sua memória mantém viva a ameaça trazida pela existência de tais armas de destruição. Por um momento nós pudemos esquecer, mas sua realidade agressiva nunca estará longe do repouso de nossos corações. Nosso mundo vive agora no medo de ser mundo, na frustração de ser um mundo "pacífico" e na agonia decorrente das intenções de outros países em desenvolver sua potencialidade em empregar o poderio destrutivo das armas nucleares. Talvez não contemplemos nada de novo sobre estas intenções há décadas. Talvez esta seja apenas o exemplo da uma tendência histórica do ser humano empregar o mal à tecnologia. Neste sexto dia de agosto de 2006, lembremos em nossas orações da existência em nosso mundo de muitas armas nucleares suficientes para matar todos os seres humanos várias vezes. Podemos reconhecer que o desenvolvimento científico alcançou o ponto por meio do qual nós podemos literalmente negar finalidades do Deus. Viver a vida com VIDA! No evangelho de Lucas no capítulo 9, verso 36, entretanto, nos lembra de uma realidade mais profunda — esse nosso Deus insiste sempre em ter a ÚLTIMA PALAVRA. No texto recordamos que no monte Tabor, Jesus foi envolto por um molde branco de luz resplandecente e ofuscante, e que o nosso Deus insiste na transfiguração de qualquer natureza decadente em natureza restaurada; em resgate. O nosso Deus não deixará os "infernos de Hiroshima" sejam as últimas palavras em nossas vidas. O nosso Deus não deixará o egoísmo e a crueldade vença a batalha contra o amor que há dentro de nós. O poder da transfiguração é a ação da graça transformadora de Deus na vida de todo ser humano que crê na encarnação do Verbo feito carne. Infelizmente, os líderes "fatigados e sobrecarregados" do mundo em nossa pequena comunidade global são temidos pelos seus grandes poderes, mais do que todos os povos que eles representam. O poder da ser humano em destruir e desumanizar o outro é sempre prioridade neste sistema maligno em que vivemos. Mesmo assim somos encorajados a descer o monte e anunciar o amor em Cristo Jesus. Os cristãos verdadeiros sabem que ao lado do poder destruir está o poder do Deus que nos inspira e nos comissiona a resplandecer a luz do amor e do resgate do humano — uma força que se levanta na consciência humana, atravessando as juntas e ligaduras, e desencadeando o poder reluzente e ofuscante do Amor de Deus que pode transfigurar em nós. Nós sempre recordaremos o dia 6 de agosto de 1945 com a imagem da "nuvem cogumelo" sobre Hiroshima. Mas os cristãos que recordam que 6 de agosto é também a festa da Transfiguração de Cristo sabem, demasiadamente, que uma outra nuvem veio sobre a nossa morada aqui na terra. É a nuvem do monte Tabor, em que a voz do Deus todo poderoso nos lembra todos os dias que Jesus é o Deus - Kyrius - escolhido, a quem nós devemos ouvir! Pelo poder de Deus nós podemos ser transformados na semelhança de Cristo — restaurando a unidade com Deus e com nosso próximo e com a criação, unindo no amor do Deus. Pela transformação, no poder transfiguração do Deus, a humanidade pode girar a direção do seu leme navegando para longe do inferno branco, como foi o de Hiroshima. Mas depende de nós. Há dois mil anos Ele fala e poucos ouvem. Pelo poder de Deus, em todo nosso testemunho ofuscante do Seu Amor, nós podemos enfrentar um futuro de bênçãos na nossa vida e na terra, escutando ao escolhido de Deus e o seguindo na nova proposta de vida que Ele nos anuncia... Fala Senhor, queremos Te ouvir... Rev. Fábio Vasconcelos Deão da Catedral 25 de julho de 2006 AD. São Tiago, apóstolo.
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Rev. Fábio Vasconcelos |
Pentecostes não é Babel... Ref.: Gn 11:1-9; At 2:1-11; I Co 12:4-13; Jo 20:19-23 "… Cada qual os ouvia falar na sua própria língua…". Atos 2:6
É o costume em algumas igrejas no dia da festa de Pentecostes a prática de apresentar as leituras dos textos bíblicos ou do Evangelho referentes ao dia em múltiplas línguas. Dependendo sempre dos presença de leitores, e é claro, entre os membros da comunidade paroquial que tenham habilidade em falar língua estrangeira. Por exemplo, se alguém tem descendência espana pode ler o texto, ou parte dele em espanhol. Outros podem juntar-se as leituras com seu francês, inglês ou com seu alemão "arranhado", seu polonês, italiano ou até quando for imigrante falando na sua língua nativa, e assim por diante. A idéia naturalmente é lembrar a todos do dia de Pentecostes em Jerusalém há aproximadamente dois milênios atrás, quando os povos de cada nação estrangeira ouviram os discípulos proclamar a Boa Nova na língua nativa de cada um, como propõe a leitura do livro de Atos dos Apóstolos capítulo 2. O único problema com essa idéia, é que o efeito final causado por vezes é mais uma Babel do que de um Pentecostes. É uma verdadeira confusão...ninguém entende nada. Você deve se recordar da torre de Babel no livro do Gênesis capítulo 11:1-9. Uma história do orgulho do humano em tentar alcançar os Céus com seu próprio poder e da resposta ou da reprovação de Deus que leva aos que estavam presentes no episódio a sair pelo mundo inteiro confundidos em línguas. O texto de Gêneses nos aponta para a percepção de que sempre a compreensão e a cooperação entre os seres humanos foram ações difíceis de serem postas em prática. Essa história é antiga... Nosso mundo ainda está "confuso em línguas"... O que pode ser mal entendido será entendido mal e pronto. Até o próprio Pentecostes pessoal de cada um de nós pode ser vítima de um mal entendimento por alguns. Recentemente um membro antigo de nossa comunidade se referiu ao Espírito Santo como "...esse Ilustre Desconhecido...". Isso leva-nos a refletir sobre o nosso relacionamento íntimo com essa Pessoa da Santíssima Trindade, a qual é desconhecida para alguns de nós. No entanto, a torre de Babel é uma parábola de nosso "primeiro ruído" dentro da cultura das relações e da falha de nos comunicar sadiamente com o nosso semelhante. É mais do que uma explanação mítica das diferenças entre nações e línguas, é uma descrição da própria condição humana. Nós, freqüentemente, não compreendemos o outro mesmo quando falamos a mesma língua. Parece que em todos nós remanesce uma inabilidade fundamental de aceitar as diferenças entre nós, em nossas relações, e naquilo em que cremos. O que cremos sempre é o melhor para os que ainda não falam a "nossa língua". Mas será que foi realmente Deus que nos dispersou, que fez-nos estrangeiros em nossa própria terra e às vezes em nossa própria mente? Será que foi realmente o Senhor que confundiu nosso discurso e nos tornou surdos para nossos erros, nossos pecados? Ou a Babel talvez apresente para nós uma alegoria de como a humanidade se esqueceu da Gramática da Graça e do Vocabulário de Deus. Em Babel, os povos em seu orgulho construíram uma torre para alcançar a Deus e os Altos Céus, e o Senhor dispersou a todos. Lamentavelmente, aqueles povos pouco compreenderam como era tudo desnecessário. Como um Deus de caráter sempre "transdescendente" – que se inclina para nos alcançar ao chão – está sempre mais disposto a vir para baixo e juntar-se a nós, do que nós podemos a alcançar os Céus por nossos próprios empreendimentos e esforços. Como perdemos tempo... Nem sempre abrimos o nosso coração para que Ele nos encha do seu Espírito Santo; da sua presença; do seu Shequinah. Em Pentecostes, o Espírito do Deus desceu sobre os discípulos, descansando em cada um deles e desse modo trazendo entendimento e compreensão a todos, juntando um a um e aquecendo seus corações. Os discípulos começam naquele dia um curso prático de "audição" na língua de Deus. É justo dizer que após Pentecostes os dias de Babel estão contados para a humanidade. As grandes diferenças entre nós, reações a comunicação e ao diálogo, reações a cultura e raízes de outrem, reações a condição de riqueza e pobreza do próximo, são dispersadas nas arremetidas de um "vento violento e impetuoso" que ainda sopra no nosso meio. Como nos mostra o livro de Atos dos Apóstolos, que as diferenças estão queimadas e consumidas pelas lingüetas do fogo do Consolador. Não importa se agora nós somos os Pardos, Medos, Elamitas, Mesopotâmicos, Judeus, Capadócios, Asiáticos, Frígios, Panfílios, Egípcios, Libaneses, Cirineus, Romanos, Cretenses, Árabes, Polacos, Gaúchos, Nordestinos ou os Brasileiros de hoje. O Pentecostes inaugurou uma nova possibilidade para nós, por nós e através de nós. Mas por que nós ainda não nos compreendemos? Por que todos não falam a mesma língua? Ou pelo menos compreendem o mundo pela gramática da Graça? É a promessa de Pentecostes vazia ou sem sentido? Essas são boas perguntas. O que aconteceu em Pentecostes é importante para quem é seguidor de Cristo, mas a realidade de Pentecostes é efetivamente universal. Os discípulos não se dirigiram aos crentes somente, mas a povos do mundo conhecido da época, e falaram em uma multiplicidade das línguas. Mas o que disseram fez e faz sentido até hoje. O que falaram não gerou nenhuma dúvida, pois expressaram a língua da Paz, da Cura, como tinham aprendido de nosso Senhor Jesus Cristo: "A Paz seja convosco!". Estas são palavras que podem ser compreendidas por todos nós. Talvez a maior maravilha do dia de Pentecostes foi que os povos reunidos em Jerusalém ouviram cada um deles e compreenderam a mensagem do Evangelho e não somente em hebreu, aramaico e grego, as línguas comuns daquele tempo e lugar, mas na língua do coração humano: o Vocábulo de Deus. Certamente todas as nações e povos buscam ouvir palavras de Perdão, de Paz e da Cura. Mas nós não vivemos em um mundo que gosta de escutar. Freqüentemente, nós ouvimos o que nós queremos o ouvir e chamamos isso simplesmente de linguagem de Deus, quando devemos chamar de linguagem estrangeira. Assim, se nossas vidas, nossa igreja e o nosso mundo estiverem mais cheios de "vazios" de que do "Hálito de Deus", nossa bola vai ser sempre "murcha". Talvez por não estarmos fazendo um exame do nosso momento de escutar. Aprendemos a língua do Espírito? Conhecemos a ela? Reconhecemos a ela? Nós podemos estar satisfeitos com nossas orações pontuais aqui e ali junto com nossos familiares, amigos ou na igreja aos domingos. Mas o diálogo com Deus é também uma fala íntima e diária, envolvida no calor do seu "Hálito" (Ruach). Paulo nos diz na sua carta aos cristãos de Corinto que "há uma variedades de Dons, mas o Espírito é o mesmo". "E há uma variedade ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há uma variedade das atividades, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.". O Espírito Santo, embora um, jamais poderá ser monocromático ou enlatado. Ele está na manifestação do Seu trabalho e propósito em nós, para nós, e por nós, sempre fresco, sempre novo, esperando para ser traduzido na língua de nossas próprias vidas. Devemos fazer um esforço para aceitar o outro, não importa quão diferente ou estrangeiro ele seja, para assim compreendermos a língua do nosso Deus. Mesmo quando "o outro" venha a ser o próprio Parakleto. Somente assim veremos a Babel transformar-se em Pentecostes. O Espírito usou o discurso dos discípulos em Pentecostes remodelando e dirigindo em novidade de vida as vidas daqueles que escutaram suas palavras. Assim, que o Espírito Santo de Deus neste Pentecostes remodele em nós a preciosa maneira de ouvir a "gramática de Deus" e seu "vocabulário", sem que este esteja em nós e entre nós como apenas um "Ilustre Desconhecido". Rev. Fábio Vasconcelos Deão da Catedral do Mediador 03 de junho de 2006 AD. Lucien Lee Kinsolving (1º Bispo residente da IEAB)
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Rev. Fábio Vasconcelos |
Ainda com os olhos fitos no Céu...
Ref. At 1:6-11
A festa da Ascensão e o celebrativo e pouco "experimentado" tempo de Pentecostes nos fazem pensar sobre a transição da missão de Jesus Cristo para a missão do Espírito Santo. Com a Ascensão, termina o tempo da vida terrena de Jesus Cristo. Com o Pentecostes, começa a missão do Espírito Santo entre nós e através de nós. As duas referências históricas trazem como missões o fato de complementarem-se na sua contribuição conjunta dentro de uma nova vida a partir da conversão, ofertando assim o imprimir do dinamismo de salvação que Deus desejou e deseja desenvolver no decorrer da história humana. As duas missões de tal modo se complementam que deveríamos procurar vê-las, não como duas missões separadas, mas como duas facetas da mesma missão. Jesus Cristo viveu num espaço geográfico e num tempo histórico particulares: viveu na Palestina, há cerca de dois mil anos. Mas, ao mesmo tempo, proclamou uma mensagem de significado universal e que, por isso, vale para todos os tempos, todas as pessoas e todos os lugares, vale para todas as situações onde o ser humano faz a sua vida. O ser humano relaciona-se com Jesus, não de um modo abstrato, mas de forma concreta e palpável. Tem que ser uma experiência de vida e não uma filosofia de vida. Experiência que nos move para frente e nos trás Paz apesar de todas as coisas; Paz "apesar de...". Diante da presença do Espírito Santo, temos mais que um desafio! Como é que a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo hão de chegar a todos os lugares e a todos os tempos se não for através da missão do Espírito Santo em nós e através de nós. Este é que dá a conhecer o rosto e o cheiro de Jesus a todos os seres humanos, categoricamente a nós, mergulhados nas circunstâncias concretas da nossa vida. O Espírito Santo, que na Sagrada Escritura se descreve como sopro (ruach) - o hálito de Deus - é que nos ajuda ao encontro entre a pessoa de Jesus Cristo e o coração humano encarnando-a em cada contexto histórico e pessoal de nossas vidas. Podemos afirmar também que o homem e a mulher, o jovem e o idoso, o rico e o pobre, terão modos diferentes de compreender e experimentar do sabor de Deus que está na pessoa e na obra de Jesus. Entretanto, estes diversos modos de captar Jesus Cristo não têm necessariamente que se contradizer entre si, mas podem complementar-se no sentido de tornar visível ao mundo o rosto universal de Cristo. O acontecimento central da vida de Jesus Cristo é o seu mistério pascal, isto é, o mistério da sua paixão, morte, ressurreição e ascensão. E este acontecimento central, tal como os outros elementos da sua vida, têm de ser dado a conhecer ao mundo inteiro. Através da ação do Ruach a pessoa de Cristo ressuscitado é engrandecida ao ponto de se aproximar duma dimensão que excede o entendimento humano... A missão do Espírito Santo acontece tocando e enchendo consciências e corações humanos, movendo as nossas próprias vontades da direção do Reino de Deus. |