

Para muitos é a possibilidade de consumir mais e mais, para outros de ganhar mais e mais, e certamente que para muitos milhões de irmãos e irmãs nossos será a impossibilidade de ter o que comer, de poder estar com a família, de não ter nem uma estrebaria como abrigo.
Somos golpeados a todo instante por imagens visuais e sonoras de alguém totalmente fora da nossa realidade, em trajes de inverno, próprios para enfrentar a neve e o frio, que chamam de Papai Noel, e parece ocupar o lugar central das festas de Natal.
Pouco pode ser feito contra a força da mídia, das vitrines, dos outdoors, enfim, onde algumas pessoas fazem do Natal uma enorme oportunidade de promover o consumismo e, portanto, de ganhar dinheiro. Sabemos com certeza que as igrejas cristãs contribuíram para a implementação de todo esse processo, e lembramos da nossa infância recheada de sonhos com o Papai Noel e seus presentes, as promessas para compensar um “bom comportamento”, as canções de Natal importadas do hemisfério norte, as lendas envolvendo meias e sapatos nas lareiras (e não havia lareira em nossa casa!).
Como cristãos temos “trabalhado” tão pouco o presépio, iniciativa do querido São Francisco de Assis... Temos sido tão pouco criativos em inculturar a expressão desta grande festa, fundamental na compreensão do cerne da nossa fé e prática cristãs. Nem ao menos procuramos resgatar para a nossa cultura as verdades por trás desses símbolos, que têm sido manipulados por outros interesses.
“Jesus Cristo ou Papai Noel?”. Pergunte às crianças sobre a primeira imagem que têm quando pensam no Natal... O “bom velhinho” ganha de goleada. Em muitos é feita uma despesa exagerada que faz de uma celebração de humildade e simplicidade uma festança de gastos e comilanças. Chega a haver uma espécie de “concurso de beleza”!
Um dia pareceu até que o texto bíblico (Lc 2.10-11) havia sido alterado para “... motivo de grande alegria... nasceu o Salvador de vocês, - o Papai Noel, - o senhor...”.
A origem do “Papai Noel” é São Nicolau, bispo de Mira (Ásia Menor), que viveu de 271 a 341 AD. Vamos tentar mudar essa imagem comum de “agente de vendas” do Papai Noel, insistindo na re-descoberta do seu verdadeiro significado original. Ao invés da beleza exótica do pinheiro coberto de neve, vamos buscar re-descobrir na vegetação brasileira regional o sentido da “árvore da vida”.
Que tal celebrar a alegria da caridade e da partilha, começando por pequenas e simples coisas, na convivência fraterna? Isso começa no Advento! Que tal olhar um pouco mais a criança, sua alegria e esperança, sua capacidade saudável de sonhar, fantasiar e viver a paz... Conviver, tocar, amparar, ajudar, estar junto... Há quanta criança sem chance de pelo menos sonhar, sem esperança, sem afeto, sem paz...
Façamos pequenas coisas que expressem uma verdadeira compreensão do Natal. Começando com nossas famílias. Continuando com a nossa espiritualidade. Não nos preocupemos em grandes projetos, cujas proporções vão nos afogar. E que nessa caminhada de fé, possamos celebrar a misericórdia e a ternura do Deus Menino. Deixemos que elas penetrem em nossos corações para transformá-los, em direção a um ano novo com, muita luz e esperança!
+Jubal Pereira Neves
Bispo da Diocese Sul-Ocidental
Santa Maria, dezembro de 2004 AD.