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CARTA PASTORAL AO POVO DE DEUS DIOCESE SUL-OCIDENTAL, ANO 2005 A.D. |
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Que a Graça e a Paz de Deus e do Senhor Jesus Cristo estejam com todos!
1. Agora na quadra da Páscoa escutamos/lemos a narrativa de São Lucas 24 (13-35), que nos fala dos "discípulos de Emaús", aqueles que caminhavam apressados de Jerusalém para Emaús. Se agora a pessoa que está sentada ao seu lado se virasse para você e perguntasse: - Para onde vais? - Você está indo para Emaús ou voltando para a Jerusalém? - O que você responderia? E nossa diocese, está ela na estrada que leva a Emaús ou na estrada de quem volta para Jerusalém? Eis uma questão que certamente envolve nossa identidade, vocação e missão! E Deus nos chama pelo nome (Mc. 1.11) e pergunta... - Para onde vais?!
2. Claro que não dá para responder de imediato. É necessário lucidez. Mas antes, precisamos acordar! A pergunta questiona nosso modo de viver e o caminho onde colocamos nossa vida. Há muitos dos nossos irmãos e muitas das nossas irmãs que não estão em nenhum desses caminhos, em razão de viverem a fé de modo apático, descompromissado, onde a fé não repercute em suas decisões, suas escolhas, seu modo de viver, pensar e agir.
3. "Emaús" esconde diversas rotas e muitos endereços. Os discípulos estavam com medo e fugindo da situação, e assim o endereço da fuga foi Emaús. Não se trata de um endereço da degradação, ou coisa semelhante. Trata-se, sem dúvida, de um endereço bem intencionado, e muitas vezes consciente. Entretanto é uma rota e um endereço onde a pessoa se esconde, se omite, descomprometida com tudo. O lugar para onde vai é bom, mas é um local onde a pessoa não quer ser perturbada ou incomodada.
4. Hoje em dia há muitos endereços semelhantes, - bons e interessantes, - mas com a mesma finalidade de Emaús, a saber, esconder-se, não se comprometer com nada. Neste sentido, caros irmãos, caríssimas irmãs, "Emaús" poderá ser até a igreja onde nos reunimos. Assim acontecerá sempre que participarmos das celebrações e voltarmos para nossas casas sem desafios, sem mudança alguma. "Emaús" pode ser também um grupo de oração ou de estudo bíblico no qual todos cantam, rezam, mas são incapazes de transformar suas vidas em compromisso com o próximo, com a justiça e com a paz.
5. "Emaús" é fugir, é confundir a vontade de Deus com "uma agenda" de acordo com nossas capacidades, "nosso formato". Dirigimo-nos a destinos prazerosos, por caminhos e rotas soltas. São todos caminhos que podem ser indiferentes se neles não se caminhar atentamente, bem acordados. É que na hora da chegada pode haver um problema: a incapacidade de reconhecer o Senhor ao partir o pão. É o caso de ouvir a Palavra, mas não se abrir para deixar que a Palavra faça arder o coração, como diz o Evangelho (Lc 24.32). É o caso de participar da "saudação da paz" e depois não ser capaz de ver no outro o rosto de um irmão, de uma irmã. É sair do templo (da celebração) e voltar para o cotidiano sem nenhuma mudança na vida concreta.
6. Os discípulos de Emaús voltaram para Jerusalém e começaram a anunciar a ressurreição do Senhor. O problema é não fazer o caminho e ficar em Emaús, não acordar! Não ser capaz de reconhecer a presença de Jesus caminhando na vida.
7. Hoje, caros irmãos e caríssimas irmãs, "voltar para Jerusalém" significa voltar para a comunidade, voltar para a família, voltar para a sociedade como um todo, e aí testemunhar o Evangelho da ressurreição com palavras, gestos e ações (Col. 3.12-17). E experimentaremos a ressurreição quando com lucidez percebermos a presença de Jesus caminhando conosco, e passar a olhar o mundo com os olhos de Jesus.
8. São João Crisóstomo, já no século IV, se dirigia aos cristãos e lhes dizia: "...Deus no início não criou nem ricos e pobres...por isso, o ar, o sol, a terra, o mar, a luz e as estrelas Ele distribuiu tudo a todos como se fossem irmãos d’Ele. Ele criou para todos os mesmos olhos, um mesmo corpo, uma mesma alma. Mas prestem Atenção! Tudo vai bem, enquanto se trata destas coisas comuns. Não há brigas. Quando porém surge a cobiça, quando a gente procura se apoderar de uma coisa, então a paz é rompida. Deus nos reuniu numa comunhão universal e nós procuramos nos dividir a nós mesmos, nós nos rasgamos e procuramos nos apoderar dos bens que Deus deu a todos como algo pessoal que passamos a chamar com as frias palavras: o meu, o seu." (São João Crisóstomo, sermão nº12, sobre 1º Timóteo).
9. No mundo, a cada 7 segundos morre de fome uma criança enquanto se gastou, no ano de 2003, U$ 30 mil dólares por segundo com a tecnologia de guerra. Em nosso pais cristão a violência urbana é brutal. No campo a injustiça e a morte correm soltos. Com certeza São João Crisóstomo coraria se vislumbrasse que um dia, num país tão abençoado por Deus como é o Brasil, ocorreria uma concentração brutal de terra e riqueza que condena milhões ao desespero, a marginalidade social, a excomunhão da sociedade capitalista que é o desemprego. Como não há justiça, não há paz (Is 32.17). (Os Dados sócio-econômicos citados nesse parágrafo foram extraídos do manual da CF).
10. Poucas semanas atrás um jornalista perguntou ao arcebispo Anglicano da África, Winston Ndungane, que tipo de mundo ele queria ter. Ele, quase que instantaneamente, respondeu:
- Eu gostaria de ter um mundo com a face humana.
Um "mundo com a face humana" envolve pessoas capazes de sorrir, vivendo em plena liberdade, em paz, em prosperidade, podendo realizar plenamente o que Deus lhe preparou. O Profeta Isaías nos fala disso em 65. 20-22. São versos que falam do fim de mortalidade infantil, saúde para todos, dignidade para os idosos, casa para todos as famílias, estabilidade econômica onde todos tenham acesso ao suficiente, e todos se alegrem na justiça e na paz. Não é o que vemos ao nosso redor. E o arcebispo aponta para a pobreza como o novo apartheid global. E aqui ele aponta uma diferença: o apartheid racial acontece por causa de um nascimento. O apartheid econômico é diferente, sendo conseqüência da enorme desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. E cita o fato de que "as três pessoas mais ricas no mundo controlam mais riqueza do que 600 milhões de pessoas dos países mais pobres do mundo! Nada é intrinsecamente bom ou mau. A maneira como utilizamos as coisas é que coloca a moralidade no cenário da vida. Por muito tempo tem-se permitido aos ricos explorar aos pobres. (Anglican Communion News Service 3969, 14 abril de 2005, sermão proferido na Semana Global de ação sobre o Comércio).
11. Os primeiros cristãos marcaram o seu compromisso localizando-se na comunidade, bem como sendo comunidade. Foram chamados do mundo, mas não foram removidos do mundo. Em meio ao seu testemunho ("martyria") eles eram olhados pelas pessoas "como referência", à medida que estavam aprendendo e adorando juntos onde a graça do Espírito Santo estava visível. Praticavam o bem, partilhavam suas riquezas com os necessitados, partindo juntos o pão, vivendo o cotidiano com alegria e paciência, empenhando-se para não ser ansiosos a respeito do amanhã. Era a conduta de gente marcada por alguma coisa que vale abraçar. Da mesma forma hoje nosso entusiasmo como Igreja será ou não "referência" e agente para alcançar o mundo com a vida e amor de Deus.
12. A Igreja que queremos é, portanto, nosso conjunto de paróquias, missões, capelas, escolas e projetos ocupando um espaço com qualidade, buscando no tempo viver a vocação de Deus em amor (Jo 15.12-17), lutando pelo bem estar do povo de Deus, independente de diferenças raciais e culturais, e vivendo com o perdão uns aos outros e a generosidade do evangelho (Lc 4.18-19). Aqui vemos que a missão está ligada à identidade e à vocação! O alvo não é o sucesso, mas fidelidade. É a cruz. É um ministério que envolve sofrimento. Caminhada da cruz. Caminhar para Jerusalém...
13. O bispo anglicano Malcolm Harding, da ECUSA, afirmou (em março p.p. no A.D.) que a expressão "uns aos outros" aparece pelo menos cinqüenta vezes no Novo Testamento. Orando uns pelos outros, escutando uns aos outros, amando uns aos outros, suportando uns aos outros, carregando as cargas uns dos outros... São conceitos que apontam para uma relação muito estreita nas comunidades cristãs. Visitando nossa diocese companheira de Ontário, Canadá, dizia-nos a revda. Peggy que o encontro semanal nas casas (ao meio-dia!) para estudar a Bíblia e a oração "uns com/pelos outros" ajuda a superar o sentimento de isolamento e solidão que as pessoas enfrentam hoje, em nossa sociedade pós moderna. Temos a convicção de que os pequenos grupos paroquiais são espaços onde há ambiente propício para que todos venham e partilhem suas vidas, ocasião em que o ministério de todos pode ser exercido (Atos 2.42). Só que após essa liturgia segue outra liturgia que atende a nossa compreensão de Missão, que jamais se esgota em proclamar, batizar e nutrir os fiéis. Desta forma, há quatro ingredientes para as pequenas comunidades que podemos implantar em nossas paróquias e missões: AMOR (construindo pequenos grupos de cuidado pastoral recíproco), FORMAÇÃO (necessitamos aprender e re-aprender o "caminho para Jerusalém"), EXPANSÃO (em nome de Cristo buscar outras pessoas para com elas também repartirmos o que é essencial para nossas vidas e que irá transformar suas existências), e SERVIÇO (realizar um serviço de amor aos necessitados, lutar por justiça, zelar pela criação de Deus). Isso significará não mais vivermos para nós mesmos, mas para o bem comum de todos.
14. Onde estamos, onde queremos chegar, estamos voltando para Jerusalém, que tipo de mundo queremos, que tipo de igreja queremos ser, acordar e buscar a lucidez... Esta Carta Pastoral convoca todo o povo diocesano para retomar o compromisso Batismal, onde recebemos identidade (nome, quem somos), vocação (chamado, envio) e ministério (tarefa, serviço). Vamos acordar!
15. O que significa "acordar"? Ao separarmos a palavra em sílabas, teremos a-cor-dar. O significado é "dar a cor", colocar o coração em tudo o que se faz. Por mais cinzento que possa estar sendo o dia de hoje, ele tem exatamente a cor que dou a ele. Sabem por quê? Por que a vida tem a cor "que a gente pinta". Cada dia é um dia especial. Costumo dizer, - "Hoje é um dia muito importante: o resto de nossa vida começa hoje!". Cada dia é um dia novo, ninguém viveu. Os dias à nossa frente estão a nossa espera para que façamos com que sejam os melhores dias da nossa vida e da vida de nossa diocese. Deus nos dá este privilégio e esta responsabilidade! É o grande desafio desta Carta!
Que Deus te abençoe com um desconforto inquietante sobre as respostas fáceis, as meias verdades e as relações superficiais, para que possas buscar a verdade corajosa e viver profundamente em teu coração.
Que Deus te abençoe com sagrada raiva à injustiça, à opressão e à exploração de pessoas para que possas trabalhar incansavelmente pela justiça, liberdade e paz entre todas as pessoas.
Que Deus te abençoe com o Dom de lágrimas para derramá-las com aqueles que sofrem de dor, rejeição, fome ou a perda de tudo aquilo que eles amam, para que possas estender a mão para lhes dar conforto e transformar a sua dor em alegria.
Que Deus te abençoe com a tolice suficiente para que creias que realmente podes fazer diferença neste mundo, para que possas com a graça de Deus, fazer aquilo que os demais insistem ser impossível.
E que a benção de Deus, Suprema Majestade e nosso Criador, Jesus Cristo a Palavra encarnada que é o nosso irmão e Redentor, e o Espírito Santo, o nosso Advogado e Guia, seja contigo e permaneça contigo e com todos, hoje e para sempre. Amém.
(Bênção Quádrupla Franciscana, tradução de David Catron, OSF)
+Jubal Neves. Santa Maria, RS.