CETESMA – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Diocese Sul-Ocidental – distribuição
interna
IGREJAS E HOMOSSEXUALIDADE - ENSAIO DE UM BALANÇO
Gottfried Brakemeier
Preliminares
Tenho sido solicitado a falar
sobre posicionamentos oficiais de Igrejas luteranas, referentes ao tema
desta semana teológica. Visto que por ora não há posicionamento
da parte da IECLB nem, pelo que me parece, da IELB, trata-se de auscultar
manifestações de Igrejas irmãs de outros países
e continentes. A tarefa, porém, é nada fácil.
1. É impossível
isolar a voz luterana no concerto geral das demais Igrejas. A questão
possui dimensões essencialmente ecumênicas. Coloca-se a todas
as Igrejas de igual maneira, sendo que a resposta costuma ser determinada
muito mais por outros fatores do que os de ordem estritamente confessional.
Não existe “a“ posição luterana frente à homossexualidade,
e algo análogo vale para as demais denominações.
2. Quais seriam os documentos a considerar? O manual orientador “Conviver com Tensões“, parcialmente traduzido e reproduzido no caderno preparador desta semana (1), foi editado pela Igreja Evangélica da Alemanha (EKD), da qual os luteranos fazem parte, mas que não é constituída exclusivamente por eles. Existem decisões conciliares ou palavras pastorais à parte, portanto mais ou menos oficiosas, de Igrejas territoriais ou nacionais. Da grande maioria das Igrejas luteranas, porém, espalhadas por este mundo afora, falta até o momento, um pronunciamento representativo. Também sob este aspecto, pois, é impossível sintetizar algo como “a concepção luterana“ concernente à matéria.
3. Quem, por outro lado,
se propõe uma análise do assunto em sua abrangência
ecumênica defronta-se com tamanha avalanche de material que imediatamente
está tentado a resignar (2). Tal análise deverá levar
em consideração não só a diferença denominacional,
e, sim, também a origem geográfica, o contexto histórico
e social, as tradições culturais. Abre-se aí um campo
de pesquisa extremamente amplo, impossível de ser explorado num
modesto estudo como o nosso.
Meu propósito é
relativamente simples: Num primeiro passo tentarei coletar algumas observações
feitas na análise de posições assumidas por entidades
religiosas, pertinentes à homossexualidade e às questões
que levanta. Darei atenção especial aos depoimentos de Igrejas
luteranas. Mas não posso deixar de fazê-lo no contexto ecumênico
geral. O quadro é conflitivo e multifacetado. E todavia, as polêmicas
se acendem em algumas poucas questões básicas. Delas falarei
num segundo capítulo, não só em forma de listagem
estatística, e, sim, também em termos avaliativos a partir
de critérios que julgo “luteranos“. Resultarão disso algumas
urgências a serem atacadas na IECLB. Serão elas o conteúdo
da última parte.
I. Homossexualidade - matéria de conflitos
1. Confrontam-se nas Igrejas
duas concepções antagônicas que, em suas formas extremadas
podemos descrever como segue:
a. Homossexualismo é
visto como grave pecado, ofensa a Deus, algo abominável em todas
as suas formas, para o que se invoca o testemunho da Bíblia. É
considerado um desvio da ordem original de Deus que criou homem e mulher
para constituírem o matrimônio como lugar da vivência
da sexualidade e da procriação da prole. Homossexualidade
é nada inato ou pré-fixado, portanto não faz parte
da constituição do ser humano. Muito pelo contrário,
seria uma opção capaz de ser alterada mediante tratamento
ou esforço próprio. Não se submeter a tal tratamento
seria agir culposo. Sob essas premissas, evidentemente, não há
lugar para pessoas homófilas no ministério da Igreja. A discriminação
é conscientemente assumida.
b. A outra posição
defende o homossexualismo como algo absolutamente normal, sempre existente
na história da humanidade. Tratar-se-ia de uma pré-disposição
da pessoa, impossível de ser corrigida. Nessa perspectiva, não
há nada de detestável nas relações homossexuais.
As passagens bíblicas, aduzidas como contra-prova, estariam se referindo
não à orientação homossexual como tal e, sim,
a abusos nessa área. Caberia, portanto, reconhecer a homossexualidade
como equivalente à heterossexualidade e destinar-lhe o mesmo amparo
legal. Reivindicam tais grupos, enquanto cristãos, o livre acesso
ao ministério da Igreja e a bênção matrimonial
das parcerias do mesmo sexo. Lutam pelo fim de toda e qualquer discriminação
em Igreja e sociedade.
2. As duas posições
são irreconciliáveis (3). Acusam-se mutuamente do preconceito
e geram fortes conflitos internos nas Igrejas. Perpassam as fronteiras
denominacionais. É bem verdade haver Igrejas que oficialmente se
posicionam mais próximas à primeira das duas concepções.
É o caso das Testemunhas de Jeová, por exemplo, que nem mesmo
aceitam homossexuais como membros, a não ser que se submetam à
vida celibatária. Algo semelhante pode ser observado na Assembléia
de Deus, em Batistas, Adventistas e outros grupos (4). Primam por uma atitude
rígida, supostamente de acordo com a condenação do
homossexualismo na Bíblia.
Curiosamente, porém,
surgiram nestas Igrejas grupos discordantes a exemplo dos "Welcoming and
Afirming Baptists“ ou então o "Seven Day Adventists Kinship International“,
que são grupos de gays ou de lésbias, respectivamente de
seus simpatizantes (5). Mas o inverso também existe, ou seja, o
distanciamento de grupos conservadores minoritários, quando consideram
demasiadamente avançada a posição das suas Igrejas.
Qualquer abertura das Igrejas em direção à descriminalização
da homossexualidade encontra nesses círculos ferrenha resistência,
como o mostra o exemplo da Aliança Evangélica na Alemanha
(6). Quase que se poderia estabelecer a regra, dizendo: Em Igrejas majoritariamente
conservadoras há minorias abertas, em Igrejas majoritariamente abertas
há minorias fechadas. De qualquer maneira, para não poucas
pessoas o tema da homossexualidade provoca o "status confessionis“, colocando
em jogo a fidelidade ao Evangelho e acarretando o risco do racha da Igreja.
3. É notável,
porém, ter havido nas últimas décadas um despertamento
para a problemática e um considerável processo de aprendizagem.
Ainda nos anos 60, o luterano Helmut Thielicke, em sua volumosa ética
teológica, diagnosticou alto grau de perplexidade dos teólogos
perante o fenômeno, para o que lhe é exemplo um personagem
tão ilustre como Karl Barth (7). Homossexualidade, isto era um tema
marginal, se é que era considerado digno de registro. Casos respectivos
eram considerados da competência da medicina, não da teologia.
A perplexidade, aliás, era não somente desta última,
mas também da psicologia e das demais ciências humanas, como
o mostra um artigo de Klaus Bockmuehl de 1964 (8). A homossexualidade ainda
estava em fase inicial de investigação.
Isto tem mudado. É
bem verdade que as discussões, as pesquisas e as declarações
ainda não têm conduzido a um consenso. Mas elas têm
modificado o clima e produzido uma nova sensibilidade. Os juízos
taxativos de outrora sofrem contestação. Um dos instrutivos
exemplos para tanto é a discussão na Igreja Católica
Romana. Tradicionalmente sua teologia moral fazia coro com as vozes condenatórias
que qualificavam homossexualismo como aberração natural e
condição patológica da pessoa. Em 1975 a „Sagrada
Congregação para a Fé“ se pronuncia oficialmente sobre
o assunto, seguindo os padrões morais conhecidos (9). De fato, nos
horizontes de uma visão procriativista da sexualidade humana, típica
para a linha oficial da Igreja Católica, a homossexualidade deve
necessariamente destoar. A despeito disso, existem também na teologia
católica sinais de uma reconceituação, ou seja de
um "aggiornamento“ para falar em termos do teólogo espanhol Marciano
Vidal (10). Se estes sinais anunciam uma revisão da posição
oficial, porém, é uma incógnita. Considerando a dificuldade
que a Igreja Católica tem com tais “revisões“ é prudente
não alimentar demasiadas esperanças.
Ainda assim é fato
que em termos de sexualidade, e por isto também em termos de homossexualidade,
foram quebrados tabus. Ocorreu uma notável desinibição.
Esta de modo algum produziu unanimidade. Mas tornou-se difícil hoje
sustentar uma inflexível atitude de rejeição. Os juízos
necessitam ser fundamentados o que evidentemente é um progresso
a ser atribuído não só à pesquisa científica,
e, sim, muito mais aos reclamos e argumentos dos próprios grupos
de gays e lésbicas.
4. Dentro desse novo clima
verifica-se nas Igrejas uma estranha oscilação entre avanços
e recuos. Particularmente nas Igrejas chamadas “históricas“ (the
main-line churches) está em andamento um notável processo
de reavaliação, não só da homossexualidade,
e, sim, também de temas como a família, o matrimônio,
a moral sexual em geral. Para essa tensão entre investidas e retrocessos
apresentamos três exemplos
a. Na Dinamarca, país
em que a Igreja luterana goza do status de Igreja oficial, o parlamento
tem decidido conceder a uniões homossexuais as mesmas prerrogativas
legais quanto aos matrimônios. A resolução colocou
também a Igreja em nova situação. Após diversos
estudos preparatórios, os bispos luteranos decidiram em 1997 concordar
com que as pessoas homófilas recebessem também elas a bênção
de suas parcerias. E no entanto, é forte a oposição
a essa abertura, impedindo até agora um procedimento comum no caso
da bênção. As críticas fizeram com que, da parte
das instâncias diretivas da Igreja, devesse ser enfaticamente sublinhado
que as referidas bênçãos não suspendem o matrimônio
de homem e mulher em sua qualidade de padrão normativo. Seria ele
a instituição correspondente ao plano de Deus e a estrutura
básica da família e da educação dos filhos.
Mesmo assim, a discussão sobre uma forma de bênção
a uniões homossexuais representa algo até agora inédito.
Ela tem analogias em outros países, a exemplo da Noruega, da Suécia
e da Alemanha. A despeito das resistências que sofre, o modelo dinamarquês
e seus congêneres pertence, em termos de equiparação
de homo e de heterossexuais, aos mais avançados que de momento existem
(11).
b. Bem mais forte é
a contestação na Igreja Luterana na América (ELCA).
Em 1989 essa Igreja edita um estudo com o título “Podemos falar
a respeito?“ Persegue o propósito de preparar cristãos e
cristãs para discutir a homossexualidade (12). Mas já naquele
ano o assunto não era novo. Em 1986, uma das Igrejas precursoras
da ELCA, a "Lutheran Church of America“ tinha enviado às comunidades
um estudo de assuntos relativos à homossexualidade (13). Segue em
1991 outra manifestação da ELCA: “A sexualidade humana e
a fé cristã“ (14). A Igreja procura abrir brechas para uma
nova compreensão de várias questões, entre elas o
homossexualismo. Constata, por exemplo: “Necessitamos examinar as suposições
de que na Bíblia se rechaça a homossexualidade...“ e pergunta:
“Será possível que as sérias relações
entre homossexuais ou lésbicas sejam sinal do amor transformado
da nova criação em Cristo..?“ Foram extremamente numerosas
as reações por parte das comunidades, das quais uma grande
parte negativa. A onda de protesto foi tamanha que a Igreja adiou um posicionamento
oficial. Houve desligamento de pastores gays do ministério (15).
5. Acalorada discussão
provocou também o já referido texto “Conviver com Tensões“,
editado pela Igreja Evangélica da Alemanha em 1996 (16). Os progressos
são tímidos. É flagrante o temor que o reconhecimento
oficial de parcerias homossexuais possa ameaçar o matrimônio
entre homem e mulher em sua qualidade de padrão normativo. Por isto
também não se admitem pessoas homossexuais ao ministério,
a não ser que se comprometam a desistir de apregoar a convivência
homossexual como equivalente ou superior ao matrimônio (17). De outro
lado fala-se enfaticamente em “orientação“, respectivamente
em “cunho“ homossexual, dando a entender não se tratar de uma simples
questão de conduta ou de um opcional estilo de vida, e, sim, de
uma condição imutável, ao menos em grande parte dos
casos. (18) Reconhece-se a injustiça praticada nas pessoas respectivas,
causadora de muito sofrimento em passado e presente. Pessoas homófilas
não são menos valiosas que as heterossexuais. Admite-se inclusive
uma bênção, contudo não da parceria homossexual,
e, sim, das pessoas, a fim de distingui-la nitidamente da bênção
matrimonial.
O texto recebeu fortes
críticas de ambos os lados: Uns viam nele traição
aos valores cristãos e um exemplo típico de justificação
do pecado em lugar da do pecador (19). Outros deploraram o curso retrógrado
da Igreja. Em parte foram violentas as reações, principalmente
de organizações como "Labrystheia“, uma rede de teólogas
lésbicas, ou como o "Schwulenverband in Deutschland“ (SVD), uma
entidade de homossexuais masculinos. De fato, o posicionamento da EKD não
está livre de ambigüidades. Queria satisfazer a gregos e troianos,
não agradando finalmente a ninguém. Contém passagens
muito valiosas. Entretanto, caracteriza-se pela tentativa de dizer um simultâneo
"sim“ e "não“, não podendo em última instância
convencer (20).
6. Os sinais dos tempos,
porém, apontam claramente em direção à abertura
de espaços para pessoas homófilas. Mostra-o um texto, produzido,
também em 1996, pela Igreja Evangélica da Renânia,
pertencente à "Igreja da União“ (21). Traz o título:
"Sexualidade e formas de vida“ e "Matrimônio e bênção“.
Afirma que, em princípio a homofilia pode ser aceita e que não
há argumento teológico contrário à bênção
de um par do mesmo sexo. Isto desde que se tenha em mente a diferença
entre "bênção“ e "casamento religioso“ (22). Evolução
semelhante pode-se observar na Igreja da Inglaterra, na Anglicana. Desde
1991 valia a regra que a mera orientação homossexual não
seria obstáculo para o ministério, enquanto a prática
respectiva poderia ser tolerada somente em leigos, não em clérigos.
Entrementes cresceu o número de pessoas favoráveis a que
também pessoas homófilas praticantes possam ser ordenadas
ao sacerdócio. Em 1997 houve resolução conciliar no
sentido de reestudar a questão (23). O assunto continua polêmico.
E, todavia, a referida ampliação dos espaços é
uma realidade, documentada por uma série de outros posicionamentos
que não temos condições de aqui apresentar (24).
7. Cabe destacar a importância
de palavras pastorais por parte de bispos, presidentes ou outras autoridades
eclesiásticas nesse processo. Menciono, entre outros, os nomes de
Martin Kruse, ex-bispo da Igreja Berlim-Brandenburg, de seu sucessor Wolfgang
Huber, do Superintendente Ako Haarbeck, da Igreja Reformada em Lippe e
outros. Fomentaram a reflexão e prepararam o terreno para declarações
sinodais (25). Cito como ilustre exemplo ecumênico o benemérito
bispo anglicano Desmond Tutu que disse, em 1996: "Nós as rejeitamos
(as pessoas homófilas), nós as tratamos como párias
e as empurramos para fora das nossas comunidades, negando assim as conseqüências
de seu e de nosso batismo. Nós as fazemos duvidar de que são
filhos de Deus, e isto é quase a mais pesada blasfêmia. Nós
as envergonhamos em razão de algo pelo que, como mais e mais se
evidencia, pouco podem fazer.“ (26)
8. Homossexualidade continua
sendo motivo de discórdia nas Igrejas. Mesmo assim, há resultados
a registrar. Mencionamos:
a. É compartilhada
por todas as Igrejas a oposição à violência
contra pessoas homófílas. Reconhecendo a co-responsabilidade
de grupos cristãos na perseguição dessas pessoas,
as Igrejas concordam em qualificar a agressão física como
abominável crime. É o que se pode ouvir inclusive da boca
de um Pat Robertson, da "moral majority“ nos Estados Unidos, organização
extremamente conservadora (27). Na Europa, após agressões
de Skinheads a homossexuais, Igrejas tornaram público o seu protesto.
A violência é a primeira forma de homofobia a ser combatida.
b. Há amplo consenso também no que diz respeito aos direitos civis dos homófilos. Muitas Igrejas se fizeram advogadas da igualdade de direitos e do pleno respeito à cidadania dessas pessoas. Isto implica, não por último, o direito à proteção jurídico-legal de parcerias homossexuais.
c. Cresce, nas Igrejas,
a ênfase na dignidade das pessoas com orientação homófila.
São filhos e filhas de Deus assim como o são os demais membros
da comunidade. Quem os exclui, comete pecado. Em Igrejas luteranas se acrescenta
um aspecto peculiar: Já que Deus justifica pecadores - e somente
pecadores - importa conscientizar-se da solidariedade de todos no pecado
o que se constitui em forte obstáculo à discriminação
e ao desprezo a determinadas minorias. Em síntese, parece-me ser
nítida nas igrejas a tendência a buscar a integração
das pessoas homófilas na comunidade de Deus.
É claro que essa
busca há de remover ainda consideráveis pedras do caminho.
A essas pedras dirigimos agora a nossa atenção.
II. Questões cruciais a resolver
l. Uma das perguntas mais controvertidas continua referindo-se à qualidade pecaminosa do homossexualismo. Trata-se de pecado, sim ou não? A resposta vai depender de três premissas:
a. A disposição
de realmente ocupar-se com o fenômeno. Isto não só
inclui informação científica como também o
auscultar da voz das próprias pessoas envolvidas (28). O estudo
desapaixonado da homossexualidade provavelmente não vai fornecer
resposta definitiva, se essa orientação poderá ser
alterada, se está geneticamente condicionada ou posteriormente adquirida
(29). Mas, e disto existem suficientes provas, será definitivamente
descartada a tese de se tratar de uma livre opção. Homossexualidade
não deve ser confundida com hábito capaz de ser escolhido
arbitrariamente. Se fosse, a grande maioria das pessoas homófilas,
em razão das discriminações que sofrem, já
há tempo teria abandonado sua condição. Pouco importa,
se a origem da mesma é genética ou "ambiental“. Assim ou
assim, não se trata de uma livre escolha, e sim de uma determinação.
Pela mesma razão exclui-se também a qualificação
patológica ou clínica. Homossexualidade não é
uma doença a ser curada. Muita condenação moral da
homossexualidade decorre de desconhecimento do fenômeno.
b. Mas não diz a
Bíblia o contrário? Ora, examinando as mais recentes interpretações
das passagens alusivas, deve-se concluir que o assunto é, no mínimo,
controvertido. Como é sabido, trata-se basicamente de duas passagens
no Antigo (Lv 18.22; 20.13) e de três do Novo Testamento (Rm 1.26,27;
1 Co 6.9-11; 1 Ti 1.10). Nenhum posicionamento cristão sobre a homossexualidade
pode passar de largo desses testemunhos (30). Mas deve fazê-lo, prestando
contas da hermenêutica que usa. É mais do que flagrante ser
maior a condenação da homossexualidade, onde prevalece o
espírito biblicista, isto é uma interpretação
literal dos textos que os isola do seu contexto histórico, postula
uma isocronia da pregação do Evangelho ontem e hoje e que
se recusa a distinguir entre o Evangelho em seu todo e as suas concretizações
situacionais.
A Teologia luterana deverá
insistir especialmente neste último ponto. Pois entende que a Bíblia
ultrapassa em muito um simples livro de leis. Lê as partes a partir
do todo, distingue entre letra e espírito (31), sabe diferenciar
os tempos. Pergunta, por isto, se as passagens relativas ao homossexualismo
não devem ser interpretadas a partir do cerne do Evangelho e em
consonância com ele, possibilitando hoje conceituações
diferentes daquelas em vigor há dois mil anos atrás. Isto
sempre na hipótese de as passagens realmente terem em vista a condição
homossexual, e não apenas "casos“ a exemplo da pederastia, do estupro
de homens por homens heterossexuais a que alude claramente a história
de Ló (Gn 19.4-11) ou outros. Portanto, há que se esclarecer
duas coisas: Uma vez o sentido histórico dos textos, e a seguir
o peso teológico dos mesmos frente ao evangelho numa situação
diferente daquela de Moisés e de Paulo. Vai se ver, então,
ser difícil comprovar com a Bíblia que a homossexualidade
tal como a entendemos hoje seja excludente do reino de Deus.
c. A inserção
da homossexualidade na discussão sobre o todo da sexualidade humana.
Será esta sempre é tão "hétero“ como muitos
supõem? Como entender a bi-sexualidade? Ou então, como definir
a função da sexualidade justamente hoje numa sociedade tão
erotizada como a nossa? Não posso entrar em detalhes. Mas parece-me
ser cada vez mais evidente que a homofilia deve ser reconhecida como "caso
especial“ da sexualidade humana em seu conjunto. Qualificá-la como
pecado nessa ótica, seria um anacronismo. Tal reconhecimento, porém,
não significa carta branca para toda e qualquer prática.
Muito pelo contrário, se a homossexualidade deixa de ser problema
ético, ela passa a exigir conduta ética, muito em analogia
à heterossexualidade. Abuso de menores, prostituição,
estupro, promiscuidade serão males sempre, sejam eles praticados
por pessoas homo ou heterossexuais. Também ética homossexual
deverá orientar-se no critério do amor e buscar a parceria
estável (32).
2. Com isto ainda não
está respondida a pergunta, se homossexualidade pode ser considerada
normalidade. As polêmicas mais fervorosas se inflamam justamente
nesta questão, para o que, se vejo bem, há duas razões:
a. Normalidade é
sinônimo de aceitação, anormalidade de rejeição.
No mundo de hoje, aprovação social se condiciona à
demonstração de normalidade, seja lá o que isso for.
A própria sociedade revela aí um déficit: É
incapaz de conviver com o diferente, com o que foge ao padrão estabelecido,
com o que destoa do usual. Os prejuízos dessa incapacidade são
perceptíveis não só no caso da homossexualidade. De
qualquer maneira, querendo demonstrar a "normalidade“ da orientação
homossexual, gays e lésbias estão lutando na verdade pela
aceitação social de sua condição, não
necessariamente pela nivelação de hétero e homossexualidade.
b. Essa luta está
sendo entendida por muitos como ataque aos parâmetros da ética
sexual que são o matrimônio e a família. E de fato,
a exigência da concessão de uma bênção
"matrimonial“ a uma parceria de pessoas do mesmo sexo pode favorecer tal
suposição. É o que faz muitas pessoas insistir na
“anormalidade“ da homossexualidade como suposta medida preventiva contra
a corrupção desses valores fundamentais.
A saída do impasse
exige o esforço por realismo de ambas as partes. Em primeiro lugar,
não há nenhum indício fazendo crer que o reconhecimento
da homofilia como forma específica de vivência sexual constitua
uma ameaça ao ideal do matrimônio. Por detrás desse
temor continua se escondendo a falsa concepção de a orientação
sexual ser uma questão de livre opção. A tese da “sedução“
de heterossexuais por homófilos, a não ser em caso de menores,
é infundada. Esta me parece ser uma realidade. A outra é
esta: Julgo imprescindível admitir que a condição
homossexual sempre tem sido a exceção na história
da humanidade, não importando se as estimativas variam entre 2 e
10 por cento. Entre hétero e homossexualidade existe uma “assimetria“
(33), não sendo esta, e, sim, aquela a regra.
Não é nem
prudente nem justo, pois, preconizar a equivalência de matrimônio
e parceria homossexual como se fossem alternativas no fundo permutáveis.
Por que não assumir o caráter peculiar desta última?
Evitaria conflitos desnecessários. Ademais convém lembrar
que bênção matrimonial, em Igreja Evangélica,
não é “casamento religioso“. A bênção
não constitui o matrimônio, antes pressupõe o casamento
civil no cartório. Por isto há que se cuidar para não
abusar da bênção matrimonial para a consecução
da legitimação social, impossível de ser conseguida
por outros meios (34). Pessoas homófilas têm todo o direito
de reivindicar para as suas parcerias o amparo legal do Estado a exemplo
do que acontece na Dinamarca e outros países. Têm também
o direito à assistência pastoral da Igreja, podendo esta incluir
a bênção. Mas ela não poderá ser bênção
matrimonial. Sociedade e Igreja deveriam aprender a aceitar também
as formas extraordinárias de convivência sem necessariamente
nivelar. Qual o impedimento para tanto, se estas não significam
nenhum prejuízo social como é o caso de pessoas homossexuais
que pautam sua conduta por princípios éticos? Exceções
apenas confirmam a regra, diz o ditado. E ainda, quem seria tão
absolutamente normal que se atrevesse a atirar a primeira pedra?
3. É claro que a
partir do exposto não há argumento que, em princípio,
impedisse a ordenação de pessoas homófilas ao ministério.
Isto naturalmente sob a condição de uma conduta responsável,
assim como é exigida de todos os candidatos e candidatas ao ministério
da Igreja. Seja enfatizado que "conduta responsável“ não
significa vida celibatária. Certamente também esta não
deve ser descartada. Mas é impróprio fazê-la obrigatória.
É o que vale também para pessoas homossexuais. Portanto,
homossexualidade não desqualifica para a ordenação.
Foge à estatística o número de pessoas homófilas
já admitidas ao serviço na Igreja, seja com ou sem o conhecimento
das instâncias diretivas. É de bom alvitre nem tentar fazer
levantamentos respectivos.
Os problemas começam
com a busca de um lugar de trabalho. Pessoas homossexuais confessas e praticantes
se defrontam com fortes barreiras também na IECLB, por mais que
procurem evitar escândalos. A administração da Igreja,
por esta razão, não se viu em condições de
estabelecer o vínculo empregatício em tais casos. A fim de
evitar mal-entendidos é necessário lembrar que a ordenação
não garante um lugar de trabalho na IECLB. A habilitação
definitiva ao pastorado está condicionada ao "exame pró-ministério“
e à "ordenação“. O conjunto de ambos é a base
para se estabelecer o "vínculo empregatício“. Mas este não
é automático. A admissão ao ministério na IECLB
pressupõe a concordância das comunidades e esta, no caso de
pessoas homófilas declaradas, é difícil, sim, impossível
de conseguir até o momento. Não são fatores teológicos,
assim entendo, os que excluem tais pessoas do pastorado, mas é a
conflitividade em torno do assunto que por ora lhes impede o exercício
do ministério em comunidade. Que fazer?
III. Sugestões
Considero urgente a tarefa
de iniciar um processo de reflexão sobre a matéria em nossas
comunidades. Aliás, não só sobre a homossexualidade,
e, sim, sobre a sexualidade em geral. As razões dificilmente necessitam
de justificação. As enormes transformações
no comportamento sexual das pessoas, a erosão das normas tradicionais,
as novas ameaças, incluindo doenças como a AIDS, desafiam
a comunidade cristã. Homossexualidade é um dos assuntos implícitos
nessa ampla temática. Ela é de extraordinária sensibilidade.
Pois sexualidade, isto diz respeito à esfera íntima das pessoas.
É onde elas se revelam extremamente vulneráveis e onde violência
de qualquer tipo causa terríveis estragos. Mas a comunidade não
pode evitar o assunto. A pergunta é como atacá-lo. Deve-se
fazê-lo com jeito, para não desde já obstruir a aprendizagem.
Pouco adianta reivindicar a essas alturas um "posicionamento oficial“ da IECLB. Há uma diferença fundamental entre um posicionamento individual e o de uma instituição. Este último precisa respaldar-se em certo consenso. Caso contrário vai senão intensificar os conflitos. É cogitável uma palavra pastoral. Esta tem a vantagem de ser apenas semi-oficial. Mas também ela deve usar de máxima cautela, não impondo algo que a comunidade por si própria deve descobrir. Fundamental é outra coisa, a saber, material de estudo. Dele a IECLB tem grande necessidade. Quanto a isso me permito fazer três observações:
1. O material a que nos
referimos requer a autoridade não só de uma comissão
teológica, e, sim, também de pessoas de outras áreas
como a medicina, a psicologia, a pedagogia e outras. Na elaboração
deve-se cuidar de equilíbrio na participação de homens
e mulheres. Algo análogo vale com referência a programações
respectivas em nível comunitário: Não é o pastor
ou a pastora que devem "executá-las“. Devem ser iniciadores, mas
necessitam da competência de outros profissionais.
2. A teologia será
de especial importância na interpretação do testemunho
bíblico. No que diz respeito à homossexualidade, urge uma
avaliação do estágio da interpretação
das passagens alusivas. Em se verificando - levantemos essa hipótese
- que a Bíblia não proscreve a homofilia responsavelmente
vivida, um dos grandes motivos da intolerância estaria removido.
Na investigação exegética desse assunto tão
melindroso, bem como em sua avaliação hermenêutica
eu vejo uma das prioridades a serem atendidas para se fazer justiça
às pessoas homófilas.
3. Qualquer subsídio
a ser submetido à apreciação das comunidades necessita
de boa reflexão didática. Não pode excluir a voz das
pessoas diretamente atingidas. Deve precaver-se contra mal-entendidos e
pautar a argumentação por espírito pastoral. Não
pode, a princípio, qualificar os dissidentes de preconceituosos.
Em suma, devem ser preenchidos todos os pré-requisitos de aprendizagem
que se pretende exitosa.
Enquanto isso, a IECLB,
suas instituições e comunidades podem e devem colaborar para
que também pessoas homófilas sejam protegidas da violência
e tenham assegurado seus legítimos direitos e sua dignidade. Inclusive
há razões, pelo que entendo, de a IECLB se engajar em favor
do registro civil de parcerias entre pessoas do mesmo sexo, a exemplo do
que já acontece em outros países. Para tanto, porém,
há que buscar a cooperação ecumênica e esta,
como visto, não será fácil de conseguir. A dificuldade,
entretanto, não é argumento para cruzar os braços.
*pastor luterano, doutor em teologia, professor do IPG de São Leopoldo, RS
Notas
1. Homossexualidade e
Igreja. Caderno da Semana Teológica. São Leopoldo (Escola
Superior de Teologia), 1998, p 42-53
2. Depois de lançada
a obra de Alan A. Brash. Encarando nossas diferenças - as igrejas
e seus membros homossexuais. Tradução de Walter Schlupp.
São Leopoldo (Ed. Sinodal) 1998, perguntei-me pela necessidade da
publicação deste meu estudo, elaborado sem o conhecimento
daquele texto. O autor é pastor presbiteriano da Nova Zelândia
com ampla experiência no Conselho Mundial de Igrejas. Constato, com
satisfação, forte convergência de posições.
Ainda assim, o presente estudo poderá acrescentar aspectos ao debate,
razão pela qual não hesito em trazê-lo a público.
Concordo com A. Brash quando afirma que mais importante do que apresentar
“soluções“, é dialogar sobre o assunto. Isto não
em termos abstratos, e, sim, concretos. A vida de pessoas está em
jogo, não verdades teóricas. Cf. op.cit. p 10; 71; e passim.
3. É claro que
nem todas as posições se reduzem a estes dois extremos. Veja
a tipologia mais diferenciada em Andrew Sullivan. Praticamente Normal.
Uma discussão sobre o homossexualismo. Tradução de
Isa Mara Lando. São Paulo (Comp. das Letras) 1996, p 25s
4. Fonte: Internet. http://www.religioustolerance.org/hom_chur.htm#sbc.
„Homossexuality and the Churches“ menu.
5. Idem. Alan A. Brash.
op.cit. menciona ainda outras organizações cristãs
que oferecem „participação a cristãos homossexuais“
e advogam “mudanças nas atitudes, nos regulamentos e nas leis eclesiais
referentes à homossexualidade..“ p 83 s.
6. Veja Walter Romminger.
Réplica a las tesis de A. Haarbeck acerca del trato con la homossexualidad
en nuestra iglesia. In: Revista Teológica - Seminário Concórdia,
Buenos Aires, Ano 43, n° 158, 1998, p 31-37
7. Helmut Thielicke. Theologische
Ethik, v. III, Tübingen (Mohr) 1964, p 790. Thielicke se refere à
passagem de Karl Barth em “Kirchliche Dogmatik“, v III, p 184 s.
8. Klaus Bockmuehl. „Die
Diskussion über Homossexualität in theologischer Sicht.“ In:
Evangelische Theologie, Ano 24, 1964, p 242-266
9. Texto em: Marciano
Vidal. Moral de Atitudes, 2° v.: Ética da Pessoa. Aparecida
(Ed. Santuário) 1981, 3. ed. , p 652 s
10. Ibd. p 705 s
11. Referências
Internet: 1) http://www.folkekirken.dk/udvalg/parnerskab/translat.htm
e 2) http://www.folkekirken.dk/interchurch/cn/nov97.htm#2.
Em muitos países o homossexualismo já há tempo foi
descriminalizado. Cf. Alain A. BRASH. op. cit. p 83 e 87. Novo é
que mais e mais governos concedem amparo legal às uniões
de pessoas do mesmo sexo.
12. EVANGELICAL LUTHERAN
CHURCH IN AMERICA. Can we talk about this? An Audio Tape and Study Guide
for Christians Preparing to Discuss Homossexuality. Chicago 1989
13. LUTHERAN CHURCH IN
AMERICA. Report of the Advisory Committee of Issues Relating to Homossexuality
Lutheran Church in America. New York, 1986
14. Evangelical Lutheran
Church in America - Division for Church in Society. Human Sexuality and
the Christian Faith. A study for the Church’s reflection and deliberation.
Minneapolis, 1991, esp. p 41-46. Também a Igreja Luterana do Canadá
preparou material sobre a matéria, disponível em tradução
espanhola sob o título „El coraje de amar - seis estudios sobre
homossexualidad.“ Buenos Aires, 1995
15. Internet: http://www.religioustolerance.org/hom_elca.htm
16. Evangelische Kirche
in Deutschland (EKD). Mit Spannungen leben. Texte 57 Hannover 1996.
17. Cf. ibd. p 45.
18. Existe também
uma orientação sexual flexível, capaz de ser influenciada
em um ou outro sentido, além das pessoas obviamente bi-sexuais.
Mas numa minoria expressiva a orientação homossexual é
incorrigível. Cf. Alan A. Brash. op. cit. p 81.
19. Assim o professor
de teologia Reinhard Slenczka: Statt des Sünders wird die Sünde
gerechtfertigt. In: idea, nr. 31/32 1996. Semelhante crítica tem
sido frequente. Veja “Evangelischer Pressedienst“, epd nr. 128, 1996, p
2; etc.
20. Cf. Hartmut Kreß.
Im Prinzip Ja und Nein. In: Evangelische Kommentare 29, 1996/5, p 3/4;
bem como a quantidade de vozes reunidas em: Sonderpressespiegel zur Veröffentlichung
der Orientierungshilfe des Rates der EKD zum Thema “Homossexualität
und Kirche“. EKD Pressestelle Hannover, 1996
21. EVANGELISCHE KIRCHE
IM RHEINLAND. Diskussionspapier: “Sexualität und Lebensformen“ sowie
“Trauung und Segnung“. Düsseldorf 1996
22. IDEM. esp. p 94 s
23. “Evangelischer Pressedienst“
epd. nr. 128, 1996, p 10; Alan A. Brash: op.cit.; e: Anglican Communion
News Service: “Synod debates homossexuality“, note 1293, 1997, Jul 21.
24. Veja, entre outros,
o pronunciamento da Igreja Evangélico-Luterana na Baviera através
de seu Sínodo em Fürth, 1993. Esse pronunciamento conclui com
a observação: “Acompanhamento pastoral de pessoas homófilas,
sempre que mudança desse cunho ou dessa tendência se evidenciar
impossível, pretende encorajar a uma prática homossexual
responsável. Isto pode incluir também a aprovação
e o acompanhamento de uma parceria vivida responsavelmente.“ (a tradução
é nossa) De resto remetemos para Alan A. Brash. op.cit. p 35 s
25. Vide Wolfgang Huber.
„Welche Einstellungen zur Homossexualität sollten sich in Kirche und
Gesellschaft durchsetzen?“ In: Geschlechterverhältnis und Sexualität
(ed. Christoph Gestrich). Beiheft 1997 zur Berliner Theologischen Zeitschrift,
14. Jhg., p 160- 170 O texto de Ako Haarbeck se encontra traduzido em:
Revista Teológica - Seminário Concórdia, Ano 43, n°
158, Buenos Aires 1998, p 29-31
26. Fonte Internet: http://www.religioustolerance.org/hom_ang.htm.
A tradução é nossa.
27. http://www.religioustolerance.org/hom_chur.htm#sbc.
Com relação à situação de pessoas homófílas
no Brasil remetemos entre outros a Délcio Monteiro de Lima . Os
homoeróticos. Rio de Janeiro (F. Alves) 1983
28. Assim com justas razões
já Helmut Thielicke. op.cit. Ele constata uma verdade que continua
dificultando a discussão, a saber que o juízo ético
prematuro distorce a fenomenalidade do objeto. Portanto o juízo
já formado impede o acesso ao fenômeno.
29. Sobre o assunto veja
o artigo de Angelika Eibach-Bialas/Ulrich Eibach: Gleichgeschlechtliche
Liebe - gottgewollt? In: Evangelische Kommentare, 1993/3, p 168-170; Alan
A. Brash. op.cit. p 30 s; etc.
30. São numerosas
as contribuições e existem valiosos subsídios. Uma
triagem e avaliação das diversas contribuições
exegéticas é tarefa mais e mais urgente, embora algumas tentativas
já existam. Seria altamente instrutivo um balanço do esforço
exegético, não por último para acabar com as leituras
superficiais. Veja por exemplo Daniel A. Helminiak. O que a Bíblia
realmente diz sobre a homossexualidade. Tradução Eduardo
Teixeira Nunes. São Paulo (Summus) 1998. Remetemos também
à análise instrutiva de Siegfried Keil. Theologische Überlegungen
zur Vielfalt der Geschlechterverhältnisse. In: Geschlechterverhältnis
und Sexualität. Beiheft zur Berliner Theologischen Zeitschrift, Jhg
14, 1997, p 14-29; Erhard S. Gerstenberger. Sexualidade, homossexualismo
e convivência. In: Estudos Teológicos 38, São Leopoldo
1998/2, p 109-129.
31. Trata-se de uma importante
ênfase da hermenêutica luterana. Veja Hermann Brandt. O risco
do Espírito. São Leopoldo (Ed. Sinodal) 1977, p 9 s; Gottfried
Brakemeier. Interpretação evangélica da Bíblia
a partir de Lutero. In: Reflexões em torno de Lutero (org. M. Dreher),
São Leopoldo (Ed. Sinodal) 1981, p 29 – 49
32. A negação
de estruturas de convivência aceitas pela sociedade dificulta a conduta
ética de pessoas homófilas. Constata acertadamente o já
citado caderno de estudo dos Estados Unidos (A 13): “É difícil
que duas pessoas mantenham um amor fiel por largo tempo sem estrutura nem
apoio social..“ É o que em muitos posicionamentos eclesiásticos
recebe justo destaque: A aceitação da homossexualidade é
a condição da exigência ética.
33. Neste termos fala
Wolfgang Huber em seu artigo citado acima (A 20), p 163. É preciso
distinguir sem discriminar. De maneira muito semelhante se manifesta Wolfgang
Lienemann. Die Vielfalt der Lebensgemeinschaften. Zwischen Gleichstellungsgebot
und Diskriminierungsverbot. In: Zeitschrift für Evangelische Ethik
Jhg. 39, 1995/4, p 279-294. Cf. também a já citada obra de
Andrew Sullivan (A 2), esp. p 171 que insiste no reconhecimento da “alteridade“
da pessoa homófila sem que isto signifique desmoralização
de sua condição.
34. Cf. as boas reflexões
a esse respeito no „Diskussionspapier“ da Igreja da Renânia, citado
acima em A 16, esp. p 94 s. Opõe-se com justas razões ao
que se poderia chamar de “sacramentalização“ da bênção.
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