Mensagem da Câmara dos Bispos da IEAB sobre o Relatório do Pacto, St Andrews.

 

A vida na Comunhão e a comunhão da Vida

 

Nós, bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, reunidos como Câmara, afirmamos estar acompanhando com vivo interesse o trabalho da Comissão que está propondo às instâncias da Comunhão um Pacto cuja intenção seria a de contribuir para a superação das atuais tensões dentro da Igreja.

 

Agradecemos o esforço e a sincera preocupação desse grupo e reconhecemos como o seu trabalho tem trazido importantes reflexões sobre a nossa natureza como comunhão.

 

No entanto, mesmo reconhecendo esse louvável esforço, entendemos que nossa Comunhão não necessita de novos instrumentos de consenso além daqueles que historicamente têm sido nossos referenciais em termos de identidade.

 

Estudamos dedicadamente a segunda proposta de Pacto, denominada de Proposta Santo André, e a despeito de algumas novas luzes apresentadas a partir de reações à primeira proposta, vindas de diversas partes da Comunhão, a proposição se apresenta ainda problemática na nossa visão.

 

As seções 05 e 06 na nova proposta insistem em elementos que entendemos serem inaplicáveis e desnecessários à nossa Comunhão. Na forma em que se apresentam constituem um grave retrocesso na compreensão do que seja Comunhão, priorizando mais a dimensão jurídica e menos a dimensão eclesiológica e afetiva que tem sido a marca histórica de nossa mútua interdependência.

 

O Pacto continua a ser uma proposta equivocada para a solução de conflitos através da criação de instâncias curiais absolutamente estranhas ao nosso ethos.

 

Estamos convencidos plenamente de que este tempo em que vivemos está marcado por sintomas que valorizam mais a construção de redes e outras manifestações de comunhão de forma espontânea nos diversos campos da vida humana. Insistir em um Pacto formal, jurídico e com uma lógica de disciplina e exercício de poder, representa caminhar na direção contrária, retornando assim aos tempos da Modernidade, com suas Confissões, Pactos, Dietas e outros instrumentos racionais de consenso teológico.

 

A natureza da Comunhão Anglicana já tem elementos suficientes que a caracterizam e a alimentam. A riqueza de nossa diversidade cultural e hermenêutica cria sempre para nós o desafio da positiva tensão vivida no exercício da autoridade dispersa e compartilhada. Não podemos, porém, permitir que seja substituída por um instrumento jurídico, circunstancial e de controle político.

 

A Comunhão nunca é criada e amadurecida pela letra. A verdadeira comunhão é alimentada pelo Espírito. A verdadeira comunhão é vida. O mistério pascal que vivemos na liturgia deste tempo é uma demonstração inequívoca do que precisamos re-afirmar. A fé no Cristo Ressurreto não pressupõe texto, mas sim um coração aberto e uma fé humilde. Foi o evento da Ressurreição e a percepção afetiva dele que geraram uma Comunidade, uma Comunhão.

 

Assim, inspirados por este tempo litúrgico e conscientes da riqueza de nossa Comunhão, manifestamos  a convicção de que o Pacto não é elemento essencial para manter ou fortalecer a nossa Comunhão, antes arrisca desfigurá-la. Nossa história e os instrumentos de que dispomos já  são suficientes para, num processo de escuta contínua e respeito recíproco, construirmos  unidade a partir da riqueza de nossa diversidade.

 

Curitiba, 04 de Abril de 2008.

 

Dom Maurício Andrade, Primaz e Brasília

Dom Almir dos Santos, Oeste

Dom Jubal Pereira Neves , Santa Maria-RS

Dom Orlando Santos de Oliveira, Porto Alegre, RS

Dom Celso Franco , Rio de Janeiro, RJ

Dom Naudal Alves Gomes, Curitiba, PR

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, Recife, PE

Dom Filadelfo  de Oliveira Neto, Recife, PE

Dom Saulo Maurício de Barros, Belém, PA

Dom Renato da Cruz Raatz, Pelotas, RS

Dom Roger Bird- São Paulo, SP

Dom Clovis Erly Rodrigues , Emérito Recife, PE

Dom Luiz Osório Pires Prado, Emérito Pelotas, RS

Dom Glauco Soares de Lima, Emérito de São Paulo, SP

Dom Hirohi Ito, Emérito de São Paulo, SP