“Não julgueis para não serdes julgados...” (Mt 7.1ss)
1. A viagem a Minneapolis, participando da Convenção (Sínodo Provincial) da Igreja Episcopal dos EE.UU., foi uma experiência proveitosa, que nos proporcionou maior conhecimento da vida eclesial daquela Província Anglicana, por nós chamada de ”Igreja-Mãe”, da qual ficamos independentes em 1965 (data de nossa autonomia como Província Anglicana). E pudemos ver a vitalidade daquelas 109 dioceses, seus programas, ministérios e prioridades, em torno do lema do encontro – “Vamos nos engajar na Missão de Deus”, trabalhado sobre o fundamento de quatro colunas básicas, a saber, receber, arrepender-se, reconciliar-se e restaurar.
2. Momentos marcantes do encontro foram as celebrações litúrgicas temáticas, entremeadas por estudos bíblicos, assim como a seriedade, objetividade e respeito com que assuntos os mais variados, senão controversos, foram debatidos e votados. Um desses assuntos foi a ratificação da eleição do bispo coadjutor da Diocese de New Hampshire, Revdo.Cônego Gene Robinson, por tratar-se de um gay não celibatário, isso é, vivendo com seu companheiro há mais de dez anos. Tanto leigos e clérigos (numa proporção de 2/3) quanto os bispos diocesanos (numa proporção de 3/5) disseram SIM. Bispos coadjutores, sufragâneos ou aposentados não votam esse tipo de matéria, ainda que possam discuti-la na Câmara dos Bispos. No processo e no resultado percebemos claramente que o Côn. Robinson não fora eleito por ser um “gay confesso”, mas por que sua diocese deseja como seu bispo um homem com as suas qualidades ministeriais e seu testemunho pastoral. Dois dias depois, ao final da Convenção, foi aprovada uma resolução reconhecendo que algumas comunidades locais, na vida paroquial, experimentam liturgias celebrando e abençoando uniões de pessoas do mesmo sexo. (É importante esclarecer que a palavra “matrimônio” não é mencionada, que não foi autorizado um rito específico, e que “uniões” se refere à maneira como as pessoas vivem juntas e se amam, antes de se referir apenas a questões de sexo). Como disse um jornalista, é a conseqüência da fé no evangelho da inclusão, que prega “o Jesus libertador que aceita-nos exatamente como somos”.
3. Muita gente não gostou dessa decisão, especialmente anglicanos conservadores, tradicionalistas, com uma formação bíblica muito rígida. São pessoas que devem ser respeitadas e que acreditam firmemente que “Jesus chama todos ao arrependimento de pecados e à transformação através de uma nova vida de acordo com a vontade de Deus”. É certo que muita divergência acontece, geralmente em virtude da hermenêutica bíblica (interpretação), o que nos conduz diretamente ao caminho apontado e reiterado por Lambeth 98, de estudarmos mais e mais a Bíblia Sagrada de acordo com a maneira anglicana, isto é, numa “interação criativa” com a Tradição, a Razão e a Experiência. No Brasil, a mídia em geral concedeu um tratamento maldoso à questão, sem valorizar devidamente o passo dado rumo à inclusividade e à alteridade. Pelo contrário, reforçou o preconceito e a errônea concepção do homossexualismo como doença ou desvio de conduta moral. Como se as pessoas "escolhessem ser gays".
4. Como bispos anglicanos, não podemos ignorar que a Igreja “foi abalada” pela mencionada votação no Sínodo Provincial da ECUSA. Mas também devemos reconhecer que ela também “foi sacudida” quando mudou seu ponto de vista quanto à escravidão no século XIX e quando começou a sagrar bispas mulheres no século XX. E confiantes no amor insondável de Deus, em meio ao desconforto e riscos de nossas decisões, estamos com muito amor e paz buscando pastorear o nosso povo diocesano, ao mesmo tempo que procurando ser obedientes ao Grande Mandamento.
5. Assim sendo, ainda em New York, no dia 11, contactado pelo repórter Lucas Mendes a respeito do assunto, pudemos conceder entrevista esclarecendo diversos pontos ainda não percebidos pela maioria das pessoas que ficam perturbadas. Ele começou perguntando “como nós, bispos anglicanos brasileiros, havíamos votado...” Logo esclarecemos que éramos apenas convidados, e que se tratava de um Sínodo da Província Anglicana da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América do Norte. Clarificamos também que na Comunhão Anglicana não temos um poder centralizador que decide tudo por todos e para todos, mas cada Diocese e cada Província Anglicana constituem níveis de decisão. O Arcebispo de Cantuária é nosso líder espiritual no mundo todo, sendo um claro sinal de unidade dos 77 milhões de anglicanos espalhados por mais de 165 países do mundo, mas não tem jurisdição sobre essas centenas de dioceses. E nessa qualidade, está convocando uma reunião extraordinária dos Primazes Anglicanos para outubro p.v., a fim de buscar discernir a vontade de Deus neste momento histórico de nossa Comunhão, na perspectiva de Efésios 4.1-6, quando muitas atitudes de intolerância, desrespeito e presunção se levantam pressurosas. É a prática anglicana da “Autoridade Dispersa”, ou “Colegialidade”. Da mesma forma, as Conferências de Lambeth (reuniões regulares de todos os bispos anglicanos a cada 10 anos) expressam através de resoluções o pensamento da maioria dos bispos presentes, constituindo-se em “autoridade moral” mas nunca em “legislação”. O Conselho Consultivo Anglicano (CCA, organismo que congrega representantes leigos, clericais e bispos de toda a Igreja) e os Encontros de Primazes também fazem parte destes quatro pilares sob os quais repousa a nossa Comunhão, - “onde diferentes aprendem a conviver juntos”, - expressando o pensamento anglicano do nosso tempo. Estas “Fontes da Unidade Anglicana” servem para expressar e fortalecer a unidade na diversidade da Comunhão Anglicana, que além de sua profunda vocação ecumênica possui pontos essenciais comuns, como o “Quadrilátero de Lambeth” (Escrituras do Antigo e Novo Testamentos interpretadas com o auxílio da Tradição, à luz da Razão, na Experiência da vida de adoração, Credos Apostólico e Niceno, dois Sacramentos Fundamentais (Batismo e Eucaristia) e o Episcopado Histórico.
6. Portanto, caros e caríssimos amigos e amigas em Cristo, não precisamos concordar ou discordar das decisões da Convenção Geral da ECUSA. Aliás, devemos respeitar ambas opiniões, aceitando a autonomia daqueles nossos irmãos e irmãs que através de processos canônicos regulares e democráticos, no seu contexto sócio-cultural, tomaram maduramente essa decisão de ter um bispo de orientação homossexual que convive com outra pessoa do mesmo sexo há mais de 12 anos, sendo bem conhecido pelo povo de sua diocese.
7. É hora de manter a calma, de não alimentar discórdia e divisão, momento da humildade para (re)aprender a respeitar o diferente, e rezar muito pela paz e saúde de toda a Igreja de Cristo, para que ela seja de verdade um sinal e meio de transformação e reconciliação.
8. Caso nosso povo queira ainda perguntar o que a Igreja brasileira pensa a respeito do assunto, informamos que muito em breve a Câmara dos Bispos da IEAB vai enviar Carta Pastoral a todos, e lembramos que a nossa Câmara já disse em 1997, numa Pastoral sobre a Sexualidade Humana:
“Afirmamos
que a sexualidade
é um dom de Deus
e que as relações
sexuais, exercidas
no contexto do
amor e do respeito
mútuo, não só
devem ser aceitas,
mas também
consideradas como
as coisas boas que
Deus criou. Por
outro lado, a
promiscuidade
sexual entre
pessoas do mesmo gênero
ou gêneros
diferentes deve
ser combatida, por
ser contrária ao
ensino das
Escrituras.
Entretanto, a
Igreja deve
receber com amor
pessoas de
qualquer raça,
cultura, classe
social ou orientação
sexual. Afinal,
como cristãos,
somos portadores
da promessa do Espírito
Santo que nos
conduz à Palavra
feita carne, que
acolhe os
abandonados, os
incompreendidos,
os marginalizados,
que demonstra amor
e compaixão à
mulher apanhada em
adultério, que
conversa com a
mulher samaritana
e afirma a
santidade do
homem e da mulher
em santo matrimônio...
A Bíblia em
alguns textos
condena
explicitamente o
relacionamento
homossexual,
embora em sua
maioria, seus
textos condenem a
promiscuidade, a
orgia ou o
deboche.
Entretanto,
devemos entender
que a Bíblia não
é um ditado de
Deus, mas sim a
Revelação de
Deus carregada
pela interpretação
de seus autores
que trazem nela as
influências de
sua cultura e época
(viviam eles numa
sociedade
patriarcal e
machista).
É necessário
que a Igreja
Episcopal
Anglicana do
Brasil inclua em
seus programas
educacionais e
pastorais, estudos
e orientações
sobre a
sexualidade
humana, levando em
conta o ensino das
Escrituras, o
conhecimento das
ciências humanas,
a experiência da
tradição
anglicana e uma
compreensão
contextualizada da
controvertida
questão, para que
os seus eclesianos,
livres de idéias
preconcebidas e na
visão de uma
sexualidade cristã
sadia, possam
assumir o dom da
sexualidade no
contexto da
comunidade da fé
e respeitar os
outros.”
9. “E nós
sabemos que Deus
coopera em tudo
para o bem
daqueles que o
amam,
daqueles que são
chamados segundo o
seu desígnio” (Rm
8.28).
Com nossa bênção
e fraternal abraço,
rogamos as orações
e o trabalho de
todos.
+ Jubal Neves,
bispo diocesano
Santa Maria, 15 de
agosto de 2003 AD,
dia da
bem-aventurada
Virgem Maria
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